[Prefácio de Rubén Peretó Rivas à sua obra Breve introdução à filosofia contemporânea, lançada na semana passada pela editora Frónimos. O autor é católico e ensina na Universidade Nacional de Cuyo, província de Mendoza, Argentina. Na Amazon brasileira aqui].

É cada vez mais difícil negar a decadência em que está mergulhado o mundo contemporâneo. Só não é evidente para quem cobre os olhos com a máscara de algumas das ideologias da moda, imprescindíveis para quem pretenda conservar suas relações sociais, seu bom nome e seu trabalho.

O mundo que viu o surgimento das grandes luzes do pensamento que iluminaram o mundo ocidental, e que ouviu suas discussões, das quais saíram os sólidos argumentos em que se fundaram a moral, a cultura e a política, entre outras áreas, de um toda uma civilização; esse mesmo mundo agora ouve, com espanto, que as grandes questões pressupõe a destruição do patriarcado, a exaltação das revoluções, a defesa das mais diversas diversidades que se podem conceber e a adoção de uma linguagem neutra, incapaz de distinguir o que a natureza determinou como sendo uma das primeiras e mais básicas de todas as distinções: a que existe entre o homem e a mulher.

Até poucos anos atrás, os jovens que frequentavam o ensino médio conheciam, além da sua própria língua, o grego e o latim, que lhes abriam as portas à fonte da cultura em que haviam nascido. Hoje, mal balbuciam a língua materna, e seu modo usual de expressão são os emojis [figurinhas usadas em mensagens eletrônicas]. Desconhecem não só o texto, mas também o significado cultural de palavras como Ilíada ou Odisséia, e têm apenas uma vaga e distorcida ideia, na melhor das hipóteses, do que se pretende exprimir quando o assunto é Dom Quixote.

Não é necessário continuar aprofundando a descrição de nosso século devastado. Não é esse o objetivo deste pequeno livro, que não tem mais do que a modesta pretensão de oferecer uma visão breve e rápida das linhas de pensamento mais relevantes que, durante o século passado, acabaram afetando o mundo ocidental e possibilitaram a chegada da época sombria em que vivemos hoje.

O panorama político, social, cultural e religioso atual, decrépito e condenado a uma ruína iminente, não pode ser explicado somente através de sinuosidades econômicas, como o marxismo gostaria, ou pelas poderosas ondas de uma surpreendente maturidade à qual teria chegado a humanidade a partir da Revolução Francesa — imposta pelo fio da guilhotina — e que só teria se fortalecido nas últimas décadas.

As razões da queda são mais profundas. A realidade foi desprezada e, para confrontá-la, ergueu-se a onipotência de uma razão que chegou ao ridículo de negar ao real a sua própria condição de real, posto que a realidade não é mais — dizem — do que uma construção cultural. O pensamento, libertado assim da âncora que lhe proporcionava o existente, pôs-se a navegar a favor dos ventos que esta suposta liberdade absoluta soprava. E tudo deu no que deu.

Como bem disse Roger Scruton, o único mérito do progressismo é ter destruído em poucos anos o que levou mais de vinte e cinco séculos para ser construído. Daí a necessidade de, provocados pelo mesmo progressismo, reivindicar sem pudores uma postura conservadora. Se não conservamos o que resta da cultura ocidental, não seria estranho se, mais cedo ou mais tarde, desaparecermos como civilização, engolidos por outros povos que, despojados de muitas coisas, pelo menos ainda conservam o seu senso comum.

Esta breve introdução à filosofia contemporânea tem muitos limites. A primeira delas é que cobre apenas uma parte do que, com mais ou menos razão, pode ser chamado de “filosofia contemporânea”. Os critérios de recorte se devem simplesmente à opinião do autor da seleção, que pode ser questionada com toda razão. Por outro lado, as porções escolhidas também foram recortadas, pois a complexidade do pensamento não só de um autor, mas de várias escolas de pensamento, exige necessariamente, em uma obra dessas características, que seja pintada com pinceladas rápidas.

Finalmente, há dois pontos a ressaltar. Não se trata de livro escrito para filósofos. Eles saberão onde encontrar obras mais sérias e profundas. Destina-se a um leitor medianamente culto, sem quaisquer outros requisitos de formação ou formação escolar. E, em segundo lugar, não foi escrito com caráter apologético: apresenta de forma breve e clara o pensamento de um autor, ou os princípios de uma escola filosófica, prescindindo das críticas ou opiniões que pudessem ser feitas a partir de uma posição conservadora. Essa tarefa corresponde aos leitores que, espero, possam encontrar nestas páginas as chaves que explicam o estado de prostração em que vivemos.

[O conteúdo da obra é o seguinte: 1. O neopositivismo lógico de L. Wittgenstein e R. Carnap; 2. O existencialismo de J. P. Sartre; 3. O personalismo de Buber e Levinas; 4. A teoria crítica de Habermas; 5. A psicanálise de Freud; 6. O estruturalismo de Levy-Strauss e Foucault].