[Olivier Rey, politécnico, doutor em matemática, filósofo, é bolsista do CNRS e professor da Universidade de Paris I, Panthéon-Sorbonne. É autor de várias obras, entre as quais L’idolâtrie de la vie (Tracts/Gallimard, 2020, 60 páginas) e Gloire et misère de l’image après Jésus-Christ (Éditions Conférence , 2020, 310 páginas)].

“Falemos com franqueza. O modernismo consiste em não acreditar no que se acredita “(1). Os acontecimentos recentes ilustram de forma flagrante a relevância desse juízo de Péguy, formulado há pouco mais de um século.

Quando a epidemia, causada pelo novo coronavírus, começou a se espalhar, muitos governos tomaram medidas drásticas para manter o número de mortes o mais baixo possível. Na França, o Presidente da República declarou: “O Governo mobilizará todos os meios financeiros necessários para prestar assistência, cuidar dos enfermos, salvar vidas custe o que custar” (2). Uma pergunta, entretanto, se impõe: o que é que na vida, tal como é concebida hoje, justifica salvá-la a todo custo?

Sobre tais assuntos, é insuficiente dizer que as definições dos dicionários nos deixam perplexos. Desde o século XIX, de fato, o conceito de vida é por eles apresentado em termos puramente objetivos. Nos dicionários da Academia Francesa, de 1798 e 1835,  a vida é o “estado dos seres animados, desde que tenham dentro de si o princípio da sensação e do movimento”. No Dicionário de Littré em 1863, a vida é o “estado de atividade da substância organizada”. No Dicionário Larousse do século XIX, em 1876, a vida é o “estado de seres organizados que se manifesta pelo funcionamento de seus órgãos, contribuindo, por assimilação, para o desenvolvimento ou para a conservação do sujeito e de seu próprio estado”. Hoje, o Trésor de la langue française (1994) define a vida como “o conjunto de fenômenos e funções essenciais que ocorrem do nascimento à morte e que caracterizam os seres vivos”.

Compreende-se o que rege essa espécie de definições: um superego científico, que pretende deixar de lado tudo o que poderia ser mistério na “vida” à antiga— como quando, nas primeiras quatro edições do dicionário da Academia, de 1694 a 1762, o verbete “vida” dizia: “União da alma com o corpo”, ou “Estado do homem quando sua alma está unida ao seu corpo”. Da mesma forma, no Dicionário da Língua Inglesa, de Samuel Johnson, publicado em 1755, a palavra “vida” foi definida como “união e cooperação da alma com o corpo”.

O problema — pois existe um problema — é que o mistério, que as novas definições expulsam pela porta, acaba voltando pela janela: por que razão a vida deve ser salva custe o que custar, se ela nada mais é do que o “estado de atividade da substância organizada” ou  “todos os fenômenos e funções essenciais que se manifestam desde o nascimento até a morte e que caracterizam os seres vivos”? É difícil compreender.

Quando Péguy disse que o modernismo consiste em não acreditar no que se acredita, ele pensou antes de tudo numa forma de complacência: abster-se de acreditar no que se acredita, “para não prejudicar o adversário que também não acredita”. Assim, o moderno que pensa que a vida não se limita ao “estado de atividade da substância organizada”, admitirá ainda assim tal definição para não incomodar aqueles para quem a alma é uma fantasmagoria. Sua discreta retirada é uma forma de não acreditar no que acredita.

No entanto, o “não acreditar no que se acredita” também pode ser compreendido noutro sentido: aqueles que acreditam que a vida é o “conjunto de fenômenos e funções essenciais, que ocorrem do nascimento à morte e caracterizam os seres vivos”, no fundo realmente não acreditam nisso — caso contrário, eles não poderiam argumentar que a vida deve ser salva a qualquer preço. A vida, por mais que tenha sido purificada, em sua definição, de todas as referências à alma, ainda assim reteve, sob sua aparência objetiva, algo da sacralidade que outrora deveria envolver a alma. No final das contas, se a vida, no sentido das novas definições, é hoje idolatrada, é porque ainda ressoam num segundo plano as palavras que o Senhor disse a Moisés: “Escolhe, pois, a vida”, e que Jesus disse aos seus discípulos: “Eu sou a vida”. Com a diferença que, na atual cena pública, esse pano de fundo é negado.

Ao lutar para salvar vidas, ao mesmo tempo em que se nega o que na vida a tornaria digna de tais esforços, nossas sociedades nos fazem pensar naquelas aves que podem continuar correndo por um certo tempo, depois que suas cabeças são decepadas. Seria bom se recuperássemos os nossos espíritos.

(1) Charles Péguy, L’Argent (1913), in Œuvres en prose complètes, édition de Robert Burac, 3 vol., Gallimard, coll. « Bibliothèque de la Pléiade », 1987-1992, t. 3, p. 821.

(2) “Adresse aux Français” du 12 mars 2020.

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