Já faz algum tempo que se tem notado os vínculos entre o ambientalismo apocalíptico “gretista” [simbolizado por Greta Thumberg] e os partidários da estratégia geral de “lockdown” adotada por alguns governos ocidentais, principalmente na Europa, para combater o Covid-19. Muitos certamente se lembrarão, no período de maiores restrições da pandemia, das declarações quase triunfantes de organizações “verdes”, baseadas nas fotos dos satélites que mostravam como na Ásia, mas também na Europa, a poluição do ar havia diminuído drasticamente com a queda das emissões de dióxido de carbono, ou ainda porque, com a diminuição da presença humana em áreas urbanas e suburbanas, a natureza estava enfim “recuperando seu espaço”.

Mas eis que a atração irresistível de ambientalistas pelo fica-em-casa antipandêmico — eles que vivem perpetuamente ansiosos com o destino do ecossistema — é agora explicitamente reivindicada pela principal fonte da campanha alarmista, em curso há quase vinte anos, sobre a origem antrópica do “aquecimento global”: o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), uma agência ad hoc que opera dentro da ONU. Em estudo publicado recentemente por esta agência, o climatologista Ralf Sussmann, após lembrar que, no período do mais intenso  lockdown, as emissões de CO2 foram reduzidas em 17%, com pico de 26%, defende em seguida que “para reduzir a concentração de CO2 na atmosfera, a longo prazo, as restrições impostas durante a pandemia deveriam ser mantidas por décadas. Mas mesmo assim ainda estaria longe de ser suficiente”. Continua o cientista: para respeitar os compromissos assumidos pelos países signatários do acordo de Paris, que visa bloquear o crescimento da temperatura média do planeta a 1,5 graus Celsius, seria necessário adotar medidas que dobrassem, a cada ano, a cota de não-emissões prevista para o 2020.

Em suma, segundo os profetas da mudança climática, para vencer o aquecimento global não bastaria parar a produção industrial, o transporte aéreo e terrestre, a mobilidade urbana por dois ou três meses do ano em todo o mundo, mas a paralisia geral deveria estender-se cada vez mais com o tempo, quase a ponto de torná-la permanente. Obviamente, este argumento por si só demonstra como o acordo de Paris, semelhante ao acordo de Kyoto anterior, foi uma gigantesca farsa para fins de propaganda. Admitindo-se que haja realmente uma correspondência entre as emissões de dióxido de carbono e a temperatura global, a humanidade só poderia atingir as metas estabelecidas através de um quase suicídio coletivo, “desligando” a indústria, o comércio, as comunicações, e virtualmente hibernando bilhões de pessoas por uma década. E é claro que as classes políticas dos vários Estados membros, por mais sensíveis que sejam às sereias do “gretismo”, não têm (por enquanto!) nenhuma inclinação suicida, nem qualquer desejo de retornar à era das cavernas. Além disso, fica-se com a nítida impressão de que toda a retórica sobre a “conversão verde” da economia mundial seja conversa fiada, e o impacto dessa conversão sobre o clima seria mínimo.

Mas o mais surpreendente, nos argumentos de Sussmann, como nos de outros que compartilham de suas inabaláveis certezas, é o fato de se referirem aos efeitos ambientais, decorrentes de possíveis novas restrições à vida coletiva, como se elas não tivessem repercussões na vida individual e coletiva da humanidade, sobre o PIB, a renda per capita, o emprego, o bem-estar. Os ambientalistas monotemáticos, fixados no problema climático e na “salvação da Terra”, parecem provenientes de outro planeta, onde não é preciso trabalhar para viver, onde não há necessidade de produzir, distribuir, consumir, conectar, movimentar-se para manter e aumentar o padrão de vida médio das populações.

Acaso imaginam, esses senhores, o que aconteceria se, por uma década, o aparato de produção dos países industrializados realmente “desligasse os motores”, ou os mantivesse ligados no mínimo? Imaginam a catastrófica reação em cadeia de recessão, desemprego e aumento da pobreza que se geraria? Imaginam as repercussões dessa dinâmica na cultura, na educação, na pesquisa científica (inclusive no setor onde atuam os climatologistas do IPCC) ou na saúde pública (além da Covid-19!)?

Tais discursos realmente confirmam os piores preconceitos sobre o tipo de ambientalismo mais difundido hoje em dia, no Ocidente: a impressão de que, para eles, a humanidade não passa de uma variável dependente, uma entidade desprezível, senão apenas um fator de “perturbação” em relação ao “ecossistema” (que parece ser a sua única preocupação). Deste ponto de vista, a conexão cultural entre “gretismo” e “lockdownismo”, entre obsessão climática e obsessão pandêmica, parece não episódica, mas estrutural. Ambos os fenômenos surgem de uma transposição radical, no plano secular, de tensões próprias das religiões monoteístas, sobretudo do cristianismo: em particular o milenarismo e a expectativa escatológico-apocalíptica. Já presentes nas ideologias do século XIX, com o declínio destas e a aceleração dos processos de globalização, essa transposição se traduziu no Ocidente em uma tendência à psicose coletiva, cada vez mais difusa e contagiosa. Uma psicose que se alastrou principalmente nas questões ambientais, desde o medo da energia nuclear, passando pelo “efeito estufa”, até chegar às mudanças climáticas, mas que já encontrou várias vezes, nas últimas décadas, uma válvula de escape nos temores de vírus desconhecidos e na ideia de uma pandemia iminente.

O catastrofismo ambientalista e o catastrofismo pandêmico compartilham a transferência do senso de pecado e de expiação, que abandonam o plano transcendente e migram para o imanente: a angústia de indivíduos já sem fé que encontram um sentido de vida na ideia de que seus comportamentos pessoais, e o respeito por determinados “preceitos”, podem contribuir decisivamente para o destino do planeta ou salvar a humanidade do contágio. Mas, sobretudo, ambas as visões apocalípticas transferem o sentimento de culpa do plano individual para o coletivo, identificando no desenvolvimento econômico, no capitalismo, no consumo, no crescimento, até mesmo no lazer e nas atividades lúdicas, as causas dos males que se abatem sobre a própria humanidade.

Por isso, de ambos os pontos de vista, a paralisia da economia, a recessão e até a limitação das liberdades pessoais não são vistos como um problema. Ao contrário, a mortificação da civilização humana, e em particular das sociedades industrializadas, satisfaz a devoradora necessidade de expiação e de sacrifícios (humanos) presente nos seguidores dessas “religiões”.

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