Se a maioria das pessoas ainda se espanta com a sexualização pervertida e prematura das crianças, há uma minoria poderosa que procura promover políticas educacionais que visam normalizar essa aberração. Exemplo disso é o documento publicado em 2018 pela Unesco, em parceria com a OMS e outros organismos internacionais, com o título de Orientação Técnica Internacional sobre Educação Sexual [1], visando traçar diretrizes para a educação sexual de crianças e adolescentes.

O que diz o documento, publicado em oito línguas? Entre outras coisas, que todos têm direito de expressar seus sentimentos sexuais, inclusive as crianças. A sexualidade deve ser promovida precocemente, pois a abstinência é ineficaz e pode fazer mal à saúde. Portanto, é útil promover desde cedo a masturbação, pois é prazerosa e não apresenta risco de gravidez indesejada, nem de doenças venéreas.

É conveniente que o professor, segundo essa publicação da Unesco, descreva em sala de aula as reações masculinas e femininas ao estímulo sexual, convencendo as crianças de que não devem temer as coisas do sexo. É desejável que aprendam, desde já, as maneiras de comunicar a permissão ou a recusa do consentimento sexual, insistindo (como é democrática a Unesco!) que o consentimento é fundamental para um comportamento sexual saudável, prazeroso e consensual com os parceiros.

É importante, ainda, mostrar aos alunos a influência negativa da religião sobre as normas sociais que regulam a vida sexual, e, sobretudo, como essa influência tende a mudar com o tempo, sobretudo em relação a questões como aborto, anticoncepcionais e homossexualidade.

Por isso, é importante que os filhos comecem a questionar os valores dos pais sobre sexualidade. Já que a história humana é uma mudança permanente, as crianças devem aprender a diferenciar entre os valores que os pais defendem e os que eles, os filhos, passam a ter sobre a sexualidade (obviamente, depois de instruídos democraticamente pela Unesco), reconhecendo que alguns de seus valores podem ser diferentes dos de seus pais.

É preciso, o mais cedo possível, que os pequenos compreendam como as normas sociais contribuem para a homofobia e suas consequências, reconhecendo — e com isto todos devem concordar, como ensina a própria Igreja — que não se deve discriminar pessoas que se sentem atraídas pelo mesmo sexo. Não basta, porém, que evitem a discriminação: devem aprender, também, a respeitar e até experimentar “empatia” por todas as opções sexuais das pessoas, compreendendo que a “identidade de gênero” de alguém pode não corresponder ao seu sexo biológico. Convém, também, fazê-los refletir sobre como eles se sentem em relação ao seu próprio sexo biológico.

Serão aulas desse tipo que, certamente, levarão crianças a fazer o que fez um menino francês de oito anos, que pediu em 2020 mudança de sexo. E, por incrível que pareça, com a aparente conivência da Arquidiocese de Paris. No dia 18 de setembro do mesmo ano, o site católico francês Le salon beige [2]  chamava a atenção para a forma como o programa “Un Jour une info”, da rádio parisiense e católica Notre-Dame, através do jornalista Nicolas Entz, comentava a “incrível história da transformação sexual de uma criança de 8 anos”.

O programa radiofônico narrou os fatos em detalhes: o que aconteceu com o menino francês, sua insatisfação com o próprio sexo, a “compreensão” da família para o seu drama existencial… Em vez de indignar-se, porém, com o fato desta criança, de agora em diante, passar a ser vítima de hormônios do sexo oposto para forçar seu corpo a mudar, o locutor terminava com uma aceitação bastante relativista do acontecimento: “…no fim de tudo, o amor muitas vezes acaba triunfando”.

Nos dias seguintes à transmissão, o site da rádio católica francesa ainda mantinha online o podcast do programa, com o texto da transcrição abaixo do link para o áudio. Mais tarde, retirou as duas coisas do site: áudio e texto. Em seu lugar, colocou este aviso: “Le podcast de cette émission n’a pas encore été mis en ligne” [3] [O podcast desta transmissão ainda não foi postado].

Não era verdade: não só o podcast da transmissão tinha sido postado, como a transcrição aparecia logo abaixo, na íntegra [4].


[1] https://www.unfpa.org/sites/default/files/pub-pdf/369308por.pdf

[2] https://www.lesalonbeige.fr/incroyable/

[3]  https://radionotredame.net/emissions/un-jour-une-info/18-09-2020/

[4] Eu mesmo a li, obviamente espantado com o tom complacente do texto, redigido por uma rádio que professa a mesma fé católica que professamos.