A atual China comunista e seus planos de conquista do mundo nos permitem recolocar, na ordem do dia, assuntos que julgávamos abandonados para sempre nos porões da história da literatura.

Um deles é a concepção marxista da literatura. A filosofia marxista, que é na verdade uma antifilosofia (Marx disse, em seu tempo, que era o momento de cessar a interpretação do mundo e iniciar a sua transformação), concebia a literatura como um produto ideológico, ou seja, um instrumento das classes dominantes para se perpetuar no controle da sociedade.

Duas foram, em consequência, as suas atitudes em relação aos escritores: nos países em que conquistavam o poder político, utilizar as obras literárias para a implantação do socialismo; nos países a conquistar, utilizá-las como ferramentas revolucionárias (que evoluíram ao longo do século XX de formas mais grosseiras, como o poema e o romance proletário, a uma utilização mais astuta das letras, muitas vezes equivalente à conquista suave dos muros inimigos pela técnica do cavalo de Tróia).

Um exemplo dessa evolução poderia ser James Joyce, em cuja obra o marxista menos sagaz só veria reflexos de uma sociedade deplorável e, portanto, devia ser condenada, enquanto marxistas mais sutis viam na realização literária de Joyce — por ex., o uso revolucionário da linguagem ou a representação ousada do sexo — uma aliada no combate revolucionário.

Nos dois casos, porém, ficava claro que a literatura deixava de ser algo individual e deveria estar subordinada ao partido comunista, a uma inteligência suprapessoal que comandaria a produção literária em função de um fim político. De certa forma, era uma solução muito semelhante à de Platão visando a sua república racional.

De fato, Platão sempre esteve muito preocupado com a principal característica das obras literárias: a expressão das paixões humanas, que dificultaria uma sociedade organizar-se em moldes mais racionais. No capítulo X da República, o filósofo deixa claro que preferiria que as ações humanas, representadas no palco, fossem aquelas em que os personagens manifestassem serenidade e domínio sobre as emoções, um comportamento mais frio e paciente diante da dor, embora soubesse também que não seriam as escolhidas pelos dramaturgos, pois não atingiam a sensibilidade do grande público.

Enfim, escritor favoreceria a natureza irracional do homem, nutrindo as paixões ao invés de aplacá-las, dificultando o aperfeiçoamento moral da humanidade. Portanto, estava proibida a entrada da literatura na república ideal. Platão inaugurou a manipulação da literatura a serviço de fins políticos, como faria o marxismo mais de dois mil anos depois.