Morreu na última semana (terça-feira, 8 de setembro), aos 94 anos de idade, o professor Antônio Lázaro de Almeida Prado, um dos fundadores da Faculdade de Filosofia e Letras de Assis (mais tarde campus da UNESP), junto com o crítico Antônio Cândido e outros colegas da USP paulistana.

Não fui aluno regular do prof. Prado, do qual só ouvi uma aula, no início dos anos 80. Era uma aula sobre problemas brasileiros, obrigatória para completar os créditos do mestrado. Nessa aula, depois de alguns diagnósticos felizes sobre a “problemática brasileira”, o prof. vinha com a “solucionática”:

— Basta cuidar do que é essencial, deixando de lado as abobrinhas.

Acredito que o poeta que havia no prof. Prado nada tivesse contra o excelente legume que, no país da carne de porco, virou metáfora de coisa insignificante. Era contra o país das bagatelas e dos cacarecos que se insurgia o professor, na esperança de salvar o Brasil (que deu certo) do Brasil que ia para o brejo; o Brasil da alta cultura contra o Brasil pragmático do positivismo, onde quer que se manifestasse: na Escola Superior de Guerra ou nas escolas dominadas pelo método do Paulo Freire & Cia. Ilimitada.

O professor Prado preferia outro método, expresso no conhecido verso do poeta espanhol Antonio Machado, “El camino se hace caminando”, que ele escreveu no alto do quadro negro e lá permaneceu durante toda aquela aula. “Cuidemos do essencial e vamos em frente, que o Brasil dá certo”: era o pensamento daquele católico e otimista que, agora, certamente estará ainda mais otimista que nunca.

Não fez outra coisa, enquanto professor de literatura, do que separar o trigo do joio, a substância do acidente. Como professor de “literatura universal”, sabia que a verdadeira pátria dos livros era o Ocidente, e era desse patrimônio definitivo de dois milênios e meio —  em cujo centro está a Idade Média cristã — que saíram as obras que formaram o seu espírito: os gregos, os latinos, os poetas italianos medievais e contemporâneos, a grande poesia espanhola, francesa, inglesa, sem esquecer a feita em nosso própria língua: sobretudo Camões, mas também Cesário, Pessoa, e, dos brasileiros, Murilo Mendes.

Prof. Almeida Prado pertencia a uma categoria de intelectuais praticamente em extinção na universidade: a dos humanistas, curiosos das várias áreas do saber — e aqui entendemos o porquê de sua admiração por Alceu Amoroso Lima e Otto Maria Carpeaux —, sempre buscando integrá-las na própria formação pessoal, ao contrário da atual moda acadêmica da interdisciplinaridade, em que as relações entre as disciplinas se dão exterior e coletivamente, sem esforço individual de assimilação.  

Prof. Prado, que também era poeta, foi certamente um dos últimos humanistas da universidade brasileira. Soube, por um filho seu, da sua grande admiração pelo vinho, não o vinho desesperado de Omar Khayamm, mas o vinho da moderação estoica, bebido módica e regularmente. Junte-se, à Strauss, o vinho à poesia (que é uma forma de música: sem música não há poesia, dizia o poeta Mallarmé), e os dois à Mulher (que o professor considerava a coisa mais importante do mundo, ao ponto de as cumprimentar à antiga, como gentleman, beijando-lhes a mão), e teremos os três grandes fatores da lúcida longevidade do nosso professor.

Um homem em quem a universidade não conseguiu apagar a fé em Deus e que, quanto mais desperto estava, mais exercia o direito de sonhar, como ele mesmo disse num final de soneto.