Do filósofo Aristóteles (384-322 antes de Cristo), que aparece na filosofia grega um pouco antes da decadência da sua civilização, vem o maior legado reflexivo da antiguidade sobre a literatura, contido na sua Poética, obra até hoje ainda instigante, apesar de incompleta e não passar de notas de aulas recolhidas por seus alunos do Liceu.

O texto da Poética que chegou até nós se detém, preferencialmente, na epopeia e na tragédia, mas restaram algumas passagens sobre a comédia que vale a pena destacar. Tanto a tragédia como a comédia, enquanto espécies do teatro, são para Aristóteles imitação de ações humanas. “A imitação nasce com o homem”, diz o filósofo grego, “e é isso que o torna diferente dos outros animais, pois é ele o mais imitador de todos; por imitação é que aprende as primeiras noções, além de ser coisa prazerosa.”

O mesmo objeto pode ser imitado de maneiras diferentes, por narrativa ou pela representação das ações humanas num palco. A tragédia e a comédia revelam os personagens diretamente em ação (drama significa, em grego, agir). O conjunto dos fatos, em vez de narrado, deve ser representado, tendo obrigatoriamente como núcleo uma ação única, um conjunto de acontecimentos de tal modo ligados e interdependentes que a supressão do órgão implicaria na modificação do organismo.

Tanto a comédia como a tragédia são imitações de uma ação possível, que hoje chamaríamos de ação imaginária. Juntamente com as outras modalidades literárias, cuidam daquilo que não ocorreu de fato, mas poderia ter acontecido, estando por isso mais perto das coisas universais, ao contrário da história e das demais ciências humanas, que tratariam do que realmente aconteceu e estão mais presas às coisas particulares. Não basta alguém dispor em versos um tratado científico para que ele possa ser considerado poético. Não é pelos meios empregados — verso ou prosa — que se reconhece um poeta, mas pela natureza do objeto tratado, que deve ser um objeto possível, imaginário.

Aristóteles dividiu a literatura em espécies, segundo o caráter dos criadores. A principal diferença entre tragédia e comédia, afirma Aristóteles, é que “a comédia é imitação de homens inferiores; não, todavia, quanto a toda a espécie de vícios, mas só quanto àquela parte do torpe que é ridículo.” Se os homens podem ser bons ou maus, com vícios ou virtudes, as obras que imitem a uns e outros vão pertencer a gêneros diversos: sátiras e comédias tratam de pessoas más, epopeias e tragédias de pessoas boas. Haveria até uma relação genética entre essas formas literárias: a tragédia grega nasceria do poema heroico e a comédia dos poemas satíricos.

Os poetas heroicos são espíritos mais propensos à gravidade, imitando por isso belas ações, compondo poemas apologéticos aos heróis. Seus gêneros literários preferidos são as epopeias e as tragédias. Os poetas satíricos seriam espíritos de menor valor, imitando pessoas ordinárias e destacando a sua dimensão ridícula, resultando poemas de conteúdo satírico e comédias.

A comédia teria surgido, improvisadamente, dos cantos fálicos, de conteúdo licencioso. Quanto à origem da palavra, comédia estaria ligada a kómas (aldeia). Comediantes eram aqueles que andavam de aldeia em aldeia, sem paradeiro fixo, por não serem tolerados na cidade, já que em seu espetáculo teatral apresentavam os homens piores do que são, em seus momentos mais ridículos, com uma linguagem mais próxima do coloquial (se a tragédia devia ter estilo solene, nobre e elevado, próprio do homem superior, a comédia usava a linguagem vulgar e cotidiana).

Nos fragmentos que ficaram da Poética, Aristóteles em nenhum momento arrisca uma “metafísica” do cômico e da comédia.

A comédia seria uma espécie do gênero teatral que, destinada a provocar o riso pela representação dos vícios — ridendo castigat mores —, contribuiria indiretamente, como aliada da ética, para o aperfeiçoamento da humanidade?

Estaria implícita na atitude cômica uma certa visão pessimista do mundo, de acordo com a qual o homem seria um animal essencialmente incorrigível, destinado ao erro na vida pessoal e a ser objeto de riso, quando transformado em personagem teatral?