Monsenhor Hollerich, Cardeal de Luxemburgo, jesuíta e presidente da comissão que coordena todas as Conferências Episcopais da Europa, disse que o Covid acelerou a secularização da Europa em dez anos. Segundo ele, os chamados “católicos culturais” — aqueles que iam à missa por hábito e tradição — não voltarão mais quando a epidemia passar. Para alguns membros importantes da hierarquia católica isto é causa de alegria, mas para outros de preocupação, e por muitos motivos, a começar pelo econômico. A Igreja na Irlanda, e não é a única, já fez saber que a sua existência está ameaçada, devido à queda brutal das coletas.

Mas se estes são os fatos, devemos nos esforçar para encontrar as causas. Em um lúcido artigo, da época em que era um jovem teólogo católico que acabara de participar do Concílio Vaticano II, o Papa Bento XVI se perguntava por que deveria continuar a fazer parte da Igreja. Já então, Ratzinger descrevia assim a situação: “A Igreja se encontra em um momento de confusão, em que as razões a favor ou contra não só se misturam da maneira mais estranha, mas parece impossível chegar a um entendimento. A desconfiança reina, sobretudo porque a permanência na Igreja já não tem o caráter claro e inequívoco que já teve e ninguém acredita na sinceridade dos demais”. Mais adiante acrescenta: “Hoje vemos a Igreja praticamente do ponto de vista da eficácia, preocupados em saber o que podemos fazer com ela. Para nós, hoje em dia, ela não é mais do que uma organização que pode ser transformada, e nosso grande problema é determinar quais mudanças a fariam mais eficaz para os objetivos particulares que cada um se propõe”.

Aí, precisamente, parece-me que está a chave do problema, o motivo por que tantos deixaram de ir à Missa (dos poucos que ainda o faziam). Tanto conservadores quanto progressistas perderam de vista o que a Igreja realmente é. Na medida em que é vista como uma instituição, como uma estrutura, torna-se cada vez mais difícil amá-la. Para alguns, o primeiro objetivo da Igreja é dar glória a Deus e aproximar os homens de seu Criador, ou seja, evangelizar. Para outros, o objetivo da Igreja é antes de tudo servir aos homens nas suas necessidades materiais, promover a convivência entre os povos e proteger a natureza. Mas ambos a veem, repito, como uma estrutura institucional.

Na verdade, a pergunta sobre o que é a Igreja já predispõe a uma resposta equivocada. Porque a verdadeira pergunta não deveria ser sobre o “que” é a Igreja, mas sobre “quem” é a Igreja. Quando, na interpretação do Vaticano II segundo o chamado “espírito do Concílio”, em ruptura com a Tradição, se insistiu que a Igreja era o “povo de Deus”, se lançavam as bases para o erro que agora cometemos, com as suas inevitáveis consequências. A imagem da Igreja como “povo de Deus” é positiva, quando ajuda a compreender que todos nós, dentro dela, temos a mesma dignidade, que vem da nossa condição de batizados. Mas, no contexto sócio-político em que vivemos desde o Iluminismo, é inevitável pensar que, se a Igreja é “povo”, nela reside a soberania, assim como a soberania também reside na coletividade que se identifica com determinada nação. Se na Espanha, por exemplo, a soberania reside no povo espanhol, isso significa que esse povo, através do exercício do voto, pode fazer as suas próprias leis, sejam elas quais forem, mesmo contrariando as estabelecidas pelo direito natural. Não é estranho, portanto, que seja lógico pensar que também o “povo de Deus”, no qual reside toda a soberania, pode dar a si mesmo as suas próprias leis sem levar em conta não só a Tradição, mas também a Palavra de Deus. Este “povo de Deus soberano” pode dizer, de maneira autônoma, o que é verdade e o que é mentira, o que é bom e o que é mau. De fato, este é o processo que vivemos há sessenta anos, como observou o teólogo Ratzinger e que, em nossos dias, culmina no Sínodo alemão.

Mas há um problema ainda mais grave, além dos problemas teológicos causados por esta concepção de Igreja autoidentificada com o conceito de “povo”, como se fosse mais uma democracia, embora de tipo plurinacional; e além, também, dos problemas de divisão interna gerados pelo fato de uma minoria não estar disposta a jogar o passado na lata de lixo e renunciar à Palavra e à Tradição. E esse problema mais grave, repito, é que a Igreja não é, em primeiro lugar, um “quê”, mas um “quem”.

O Vaticano II certamente usou a imagem de “povo de Deus” para designar a Igreja, mas não esqueceu outra imagem, cunhada por São Paulo e exposta por Pio XII em uma de suas encíclicas mais conhecidas. A Igreja, antes de mais nada, é o Corpo Místico de Cristo. O Senhor é a cabeça da Igreja e dela fazem parte a Santíssima Virgem, os santos, as almas do purgatório e todos os que, como “povo de Deus”, peregrinamos nesta terra. Este “povo”, que ainda se encontra aqui no mundo, não pode considerar que seja ele a Igreja, exclusivamente; é Igreja, mas não é “a Igreja”, porque a Igreja também é composta por aqueles que estão no céu, a começar por Cristo — sua cabeça, seu Senhor e seu Rei —, e aqueles que estão no purgatório. Por isso, o “povo de Deus na terra” não pode atribuir-se o direito de legislar sobre a verdade e o bem como o faz o parlamento de uma democracia, simplesmente porque ele não é o conjunto de membros que formam a Igreja, e porque deve obediência a esse Senhor que a fundou e derramou seu sangue para que ela exista e tenha vida. A esta Igreja, Corpo Místico de Cristo e também Povo de Deus, pode-se perfeitamente amar. É Alguém, é o Cristo. Não é “algo”, não é uma estrutura, não é um ente abstrato. É uma pessoa maravilhosa que, sendo o Todo-Poderoso, se encarnou em algo tão frágil e minúsculo como um ser humano, para salvar esta pequena e desobediente criatura.

“Por que tantas pessoas estão deixando de ir à Igreja?”, perguntava eu logo no início. A resposta é a mesma que tem esta outra pergunta: “Por que as pessoas, em lugares onde se pode ir à Missa e receber a Comunhão, não o fazem e preferem ficar em casa vendo a Eucaristia pela televisão?” Não é apenas o medo do contágio. É que por muitos anos — não menos de sessenta — não se tem mais dito aos católicos que a Igreja é o Corpo Místico de Cristo e que o Senhor está realmente presente na Eucaristia. Quando se apresenta a Igreja como uma estrutura, como um “quê” e não como um “quem”; e quando se diz que se pode receber a Comunhão segundo os desejos e vontades do comungante (como se a Eucaristia fosse um coisa e não uma pessoa), torna-se de fato muito difícil, senão impossível, amar a Igreja e a Eucaristia. Não é surpreendente, portanto, que muitos já não sintam mais nada pela Igreja e tampouco sintam a necessidade de receber a Sagrada Comunhão.

Cristo está na Igreja e ali nos espera, como nos espera na Eucaristia. Ele nos espera para que o amemos, o adoremos e o sirvamos de todo o coração e com todas as nossas forças. Ele é o Cristo, é “alguém” e não “algo”. Ele é o “alguém”, a pessoa que me ama e quem eu quero amar, porque ele o merece. É por isso que permaneço na Igreja. Se esta fosse apenas uma estrutura, de bom grado a dispensaria e me distanciaria desta caótica morada de confusão.

Mas eu não posso e não quero me afastar de Cristo.