Em 1833, o padre e filósofo italiano Antonio Rosmini escreveu um livro chamado As cinco feridas da Igreja. O livro causou um tremendo impacto e suas teses foram manipuladas por alguns, levando à sua condenação pelo Santo Ofício. São João Paulo II reabilitou o autor e sua obra, usando-o como exemplo na encíclica Fides et Ratio. Bento XVI o beatificou em 2007.

A primeira ferida, de que falou Rosmini, era a separação entre o clero e o povo, especialmente na liturgia. No início do século XIX, isso podia ser entendido no contexto da crise do modernismo e, portanto, mal interpretado. No início do século 21, essa ferida ainda está aberta e deve ser interpretada à luz dos acontecimentos atuais, especialmente aqueles causados pelo fechamento de igrejas e supressão de Missas devido ao Covid-19.

Por exemplo, na Espanha: em Valladolid e outros lugares, o governo regional ordenou que não mais de 25 pessoas pudessem estar na Missa; não importa se o templo fosse enorme, como a bela catedral daquela cidade castelhana, ou se fosse uma paróquia humilde e pequena. Outro caso é o de uma aldeia da Cantábria, no norte de Espanha, onde vivem apenas três moradores, e a Câmara a que pertence aquela localidade proibiu a celebração de Missas para evitar o contágio.

E assim eu poderia continuar elencando outras situações absurdas do gênero. Mas o pior, o que mais prejudica os católicos, não é isso, mas a reação de seus pastores a esses abusos. É verdade que o cardeal Blázquez, arcebispo de Valladolid, protestou; e, em outros países, também houve bispos que levantassem a voz em defesa dos direitos dos católicos.

No entanto, a impressão geral é que os pastores não fizeram o suficiente. Não estou dizendo que eles deveriam desobedecer ou incitar as pessoas a fazê-lo (é isso que os comunistas gostariam que ocorresse, para terem uma justificativa que lhes permitisse atacar a Igreja e lançar seus chacais contra ela).

Os padres, no entanto, poderiam ter usado todos os recursos da lei para protestar. Por exemplo, em Espanha, quando foi ordenado o fechamento de discotecas e locais de diversão noturna — e em muitos deles houve contágios — os proprietários recorreram aos tribunais. Pelo menos, fizeram isso.

Existem até casos de padres que nem mesmo pediram que os templos fossem abertos. Segundo a ministra da Saúde do Peru, que pode estar mentindo, os bispos daquele país não pediram a reabertura das igrejas. Assim vão as coisas.

Com a impressão generalizada de que a hierarquia da Igreja não fez tudo o que podia, dentro dos limites da lei, não é de estranhar que o descontentamento vá se alastrando entre os católicos. Nesta semana, o bispo de Pavia, na Itália, lamentou que os fiéis não estejam voltando à prática da Missa dominical, embora agora já o possam fazer.

Certamente, as causas são várias, como o medo do contágio, porque astutamente conseguiu-se fazer que as pessoas considerassem os templos como lugares perigosos para a saúde, mesmo que nenhum contágio fosse registrado neles (ao contrário de outros lugares, onde o risco é muito maior e as pessoas vão com total tranquilidade).

Mas entre essas causas está também a impressão, que muitos têm, de que os pastores não se mostraram à altura da situação e abandonaram seu povo. Certamente essa impressão não se justifica em todos os lugares, mas, repito, são muitos os que a experimentam. E se a isso se junta o despropósito que se formou com a proibição da comunhão na boca — e até mesmo a perseguição àqueles que preferiam fazer a comunhão espiritual em vez de o fazerem com a mão —, creio que a primeira ferida da Igreja, a que se referia Rosmini, está mais aberta e sangrando como nunca.

A Arquidiocese de Colônia, Alemanha, anunciou que em dez anos passará de 500 paróquias a 50. Não é o primeiro caso nem será o último. E, na Alemanha, ainda há dinheiro para continuar sustentando-se os padres, mas o que vai acontecer nos lugares onde a situação é bem diferente e são a grande maioria? A Igreja vai aceitar passivamente que as pessoas não vão mais à missa?

Talvez alguns padres fiquem felizes por ter menos trabalho, mas mesmo esses terão que pensar do que vão viver. O Covid-19 atingiu duramente a já frágil e minoritária participação na Eucaristia dominical. Será necessário um grande esforço para recuperar as pequenas percentagens que existiam antes. Será necessário um grande esforço para fechar uma ferida que está sangrando.