paglia

O que foi afirmado pelo arcebispo Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, em sua recente entrevista ao jornal americano Crux (aqui) corrompe o sentido da teologia moral católica com afirmações chocantes. Antes de examiná-los, entretanto, pode ser útil expor uma premissa.

Diante do compromisso moral de votar nas eleições políticas, a primeira coisa que aprendemos a fazer é verificar se há violações do direito primário à vida no programa partidário. Se estivesse escrito que tal partido admite o aborto ou a eutanásia, esse partido não teria direito a voto, mesmo que nesse mesmo programa houvesse elementos bons e compartilháveis. Não se pode fazer o bem através do mal.

Onde encontramos esses ensinamentos? Em toda a teologia moral católica, tal como ela (até agora) nos foi ensinada. Em particular, os encontramos na “Nota Doutrinal da Congregação para a Doutrina da Fé”, de 2002: “A consciência cristã bem formada não permite que ninguém favoreça, com o seu voto, a implementação de um programa político ou de uma única lei em que os conteúdos fundamentais de fé e da moral sejam subvertidos pela apresentação de propostas alternativas ou contrárias a esses conteúdos”.

Os católicos nunca devem separar, do contexto geral da doutrina social da Igreja, um elemento em particular, porque o bem comum não se compõe de um único conteúdo; há “princípios morais que não admitem exceções” e a responsabilidade para com eles torna-se ainda mais evidente”. É o caso do direito à vida, visto que o nascituro não pode gozar de nenhum outro direito. O direito à vida, portanto, tem uma prioridade fundamental, requer respeito absoluto e, portanto, é o primeiro critério para avaliar o voto. Um partido que o defende pode talvez não ser votado por outros motivos, mas um partido que o negue nunca poderá ser votado por nenhum outro motivo.

Este tem sido o ensino da teologia moral católica até hoje. Agora, na entrevista a Crux, Monsenhor Paglia nega tudo isso e fornece um quadro oposto. Ele pensa que seja danoso instrumentalizar algum argumento para fins políticos. Usar um tema ético por motivos políticos, como o da defesa da vida, seria fazer ideologia e instrumentalizar os princípios morais. Isso serviria tanto para o político, que coloca em seu programa a defesa da vida humana contra o aborto estatal, quanto para o eleitor que assume a defesa da vida como principal critério de votação. Ambos fariam ideologia, ou seja, usariam o princípio moral para seus próprios interesses. Em vez disto, na visão de Paglia, o eleitor católico deveria deixar de fora da cabine de votação “os princípios morais que não admitem exceções”, para que todos os partidos sejam moralmente votáveis indiscriminadamente.

A razão indicada por monsenhor Paglia é que os católicos devem comprometer-se, junto com outros homens, “numa perspectiva de bioética global, que envolva todas as grandes questões que afetam a vida, do indivíduo e da família humana”; isolar um elemento da defesa da vida, como a questão do aborto, significaria instrumentalizar a questão moral por razões ideológicas.

Não está claro como a vida pode ser defendida em todas as suas manifestações sem defendê-la também em cada uma delas em particular, nem como é possível favorecer a vida em todas as suas manifestações, negando uma prioridade ordenada ao momento inicial da própria vida. Os valores a serem perseguidos são certamente muitos, mas eles não são um conjunto indistinto, eles não são uma pilha de valores, mas um todo ordenado de valores, e toda ordem necessita de princípios ordenadores. A vida é uma desses princípios e, portanto, não pode ser colocada no mesmo nível dos demais valores.

Paglia, ao contrário, vê o conjunto dos valores morais como um todo indistinto, como uma soma ou uma lista e, ao propor persegui-los todos juntos, cai na utopia (esta, sim, está sempre a serviço de interesses partidários). À criança que, no ventre da mãe, pede para viver, como responder que deve ser paciente, já que os valores da vida devem ser perseguidos juntos?

Muitos observadores disseram que Paglia falou dessa forma já pensando nas próximas eleições americanas, em apoio a Biden e contra Trump. Não temos dificuldade em acreditar. No entanto, é necessário ver nessas declarações os passos de uma revolução geral da teologia moral católica. As intervenções surpreendentes de Paglia são, na verdade, coerentes entre si; coerentes com o novo estatuto da Pontifícia Academia para a Vida; coerentes com a transformação radical do Instituto João Paulo II para o matrimônio e a família; coerentes com o cancelamento, na teologia moral católica, da doutrina dos princípios não negociáveis; coerentes com muitos ensinamentos do Papa Francisco (que não faz distinção entre os vários movimentos populares, encorajando-os igualmente a todos,  e ainda afirma não compreender nem mesmo o significado da expressão “princípios não negociáveis”).

A renúncia aos chamados “princípios não negociáveis”, entendidos como princípios ordenadores da moral natural, está produzindo (intencionalmente) consequências gravíssimas. Monsenhor Paglia certamente o sabe. Se não há nada que nunca possa ser feito — nem da parte do político nem do eleitor — então tudo pode ser feito. Se todos os partidos podem ser votados, então os partidos vencedores podem fazer de tudo. Será, pois, inevitável que o eleitor, no momento da votação, faça aquele “contrabalanceamento de bens” que a Veritatis splendor rejeita. Também será inevitável que os eleitos façam o mesmo, depois de eleitos. Mais do que um novo quadro da moral católica, parece a sua destruição.

https://lanuovabq.it/it/la-rivoluzione-di-paglia-come-ti-distruggo-la-morale-cattolica