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Elon Musk, o bilionário que fabrica os carros elétricos Tesla, decidiu nomear seu filho como X AE A-12. Não sei como eles vão chamar na intimidade uma criança cujo nome é uma fórmula.

Não é a primeira vez que tenho ouvido nomes estranhos dados a pessoas. Lembro-me daquela senhora, no Panamá, que havia sido batizada como UsMaila, em alusão aos correios norte-americanos. Porém, o caso do filho de Musk supera todas as expectativas e tem outras raízes. Não é incultura, mas premeditação.

Essa história me fez pensar no filósofo italiano Benedetto Croce (falecido em 1952), que, sendo ateu confesso, dizia: “Não podemos deixar de nos chamar de cristãos”. Naquela época, no mundo ocidental em geral, todos eram sociologicamente cristãos, mesmo quem fosse ateu ou comunista enraivecido. Hoje, porém, como diz o jornalista Silvio Brachetta, “não podemos deixar de nos chamar de ateus”.

Se São Paulo, no seu famoso discurso aos pés da Acrópole de Atenas, dizia que “em Deus vivemos, nos movemos e existimos”, hoje a sociedade em geral não vive, nem se move, nem pensa em Deus. Do mundo sólido, em que nossos pés estavam firmemente assentados (e no qual sabíamos com certeza o que era verdadeiro e o que era falso; o que era bom e o que era mau), passamos ao mundo líquido de que falava o filósofo polonês Zygmunt Bauman, onde o chão afundava sob os nossos pés e a única certeza que havia era que não havia certeza de nada.

Mas mesmo isso já é história, é passado. Agora vivemos em um mundo gasoso, pior do que líquido (nesse pelo menos se podia nadar). O mundo de hoje é volúvel, evanescente e impregnado de gases tão letais quanto a ideologia de gênero. A ditadura do relativismo, no mundo líquido, cedeu lugar à ditadura do progressismo no mundo gasoso, em que até o politicamente correto evolui tão rapidamente que até as velhas feministas de outrora são hoje acusadas de reacionárias, por defenderem que é a biologia que define o que é uma mulher. E os políticos em geral, especialistas em vira-casaca, têm que fazer um grande esforço para não ficar à margem do ritmo frenético das mudanças.

Este mundo de gases venenosos e ditadura progressista é um mundo sem Deus, e esta é a cultura que o ateísmo produz. Porque — não podemos esquecer — “cultura” vem de “culto”. Dependendo do tipo de Deus que é adorado, se produz essa ou aquela cultura. O “não Deus”, adorado pelos ateus, está produzindo essa “não cultura”, ou melhor, essa cultura do despotismo progressista.

Quando meus antepassados espanhóis se refugiaram nas montanhas de Astúrias ou dos Pirineus, decididos a enfrentar o Islã que os expulsou de suas terras, eles o fizeram porque queriam continuar a adorar o Deus dos seus pais, e também porque queriam continuar a ter a cultura que brotava desse culto. De Covadonga a Granada, passando por Calatañazor e Navas de Tolosa, aqueles hispânicos, com sangue ibérico, celta, romano e visigótico nas veias, lutaram pelo seu culto e pela sua cultura. Eles tinham fé, mas mesmo se não a tivessem tido, eles teriam lutado da mesma forma, porque haviam compreendido que sem culto não há cultura, e a cultura se perde quando se perde o culto.

É por isso que hoje temos que lutar novamente — sem a violência medieval — pelo culto e pela cultura. Se se quer um mundo livre, sem ditaduras relativistas ou progressistas; se se espera que a democracia não seja ditada por aqueles que movem os fios dos mais poderosos meios de comunicação; se se pretende que os direitos humanos autênticos (não os inventados) sejam respeitados, então a única saída é retornar a Deus. Quem não tem fé, mas quer uma cultura sólida como aquela que provinha da fé, só dispõe de uma saída: voltar à Igreja.

Pode-se objetar que, se a pessoa não tem fé, não há como ir à Missa. O compositor Manuel de Falla, enquanto escrevia Noites nos Jardins de Espanha ou El sombrero de Tres Picos, participava em Granada da “Tertulia del Rinconcillo”, à qual comparecia, entre outros, gente como García Lorca. O sábio mestre dizia-lhes que voltassem a ir à Missa; e quando eles objetavam que não poderiam ir, pois haviam perdido a fé, ele respondia que é rezando que se aprende a rezar, e aprende-se a crer em Deus querendo acreditar em Deus.

Se te asfixiam os gases venenosos dessa cultura, que já não é nem sequer líquida, e tens ainda um pouco de fé, pede a Deus que a aumente e volte à prática religiosa. Se já não tens nem um pouco de fé, mas já não te agrada isto em que o mundo está se tornando, procure o Deus desconhecido e faz aquela oração do bom ateu: “Não sei se existes, mas se existes, me dê o dom da fé ”. Como nossos antepassados, se queres que o mundo tenha uma cultura digna desse nome, lute para que haja um culto digno desse nome: um culto dirigido ao Deus do amor e não ao bezerro de ouro.