estrela da tarde

Um homem, certa vez, olhou para o alto e viu a estrela da tarde, belíssima, no meio do azul desmaiado do céu. Era quase noite. Percebeu, como se despertado por uma súbita visão, que não se tratava só de uma estrela da tarde: era isso e mais alguma coisa. Percebeu algo de novo na altura. Quem sabe um aspecto novo da velha estrela? Que palavra traduziria melhor aquela idéia que se desenhou em sua mente, quando viu o ponto de luz tremelicando lá em cima?

Como um raio, surgiu um nome novo em sua mente: passarinho de cristal. Imagine-se a alegria que não deve ter sentido naquele momento — alegria, tremor, sensação de dever cumprido —, quando sua alma foi atravessada por aquelas palavras que se juntaram para exprimir uma face oculta, de repente desvelada, da velha estrela da tarde. O homem que viu isso, e isso percebeu, chamava-se Antônio Machado — um dos grandes poetas em língua espanhola no século XX.

Estrela? Estrela da tarde? Vênus? O que o poeta viu, naquela noite irrepetível, era um “passarinho de cristal” voando imóvel pelo céu espanhol. Não se tratava mais uma vez de enfeitar a linguagem (Machado não era dado a essas bijuterias linguísticas), mas de renomear um ser que já tinha nome, ou até mais de um, mas que nunca antes tinha sido visto por aquele prisma — ou só visto em momentos e circunstâncias diferentes, certamente por crianças…

Não é outro o sentido da “metáfora”: transferência; levar uma coisa para fora de sua área sem desterrá-la completamente; religação. O criador de metáforas — a quem se convencionou chamar de poeta — não é aquele que recorta com palavras a coisa nomeada, separando-a das demais (como faz a indústria farmacêutica com um novo medicamento), mas o que procura enredá-la ainda mais na rica trama da realidade.

É alguém que acredita haver uma ligação intima, em geral insuspeitada, costurando entre si todos os retalhos da criação divina, só aparentemente separados. Deus, fiandeiro e tecelão do universo, amarrou entre si todos os fiapos do ser e escolheu o poeta para revelar a nós outros, transeuntes distraídos, essa trama oculta, essa rede invisível que existe por trás de coisas presumivelmente distintas.

Olhar estrelas e chamá-las de passarinhos não é uma atitude arbitrária, própria de quem queira forçar parentesco entre objetos estranhos. Para o poeta, “estrela” e “passarinho” não são estrangeiros que falem línguas incompreensíveis, mas águas brotando da mesma fonte, do mesmo impulso criador que gerou o céu e da terra, os bichos e os homens, os machos e as fêmeas — e que depois o bicho-homem, ferido pelo pecado demoníaco, desdobraria em inúmeras outras dicotomias mais dramáticas e até trágicas: tédio e júbilo, guerra e paz, bem e mal.

Do mesmo modo que Deus Poeta se deleita com o universo criado, o poeta-homem se diverte religando com palavras o que o Pecado Original separou e cindiu.