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“A ciência enriquece a inteligência; a literatura enriquece a personalidade inteira.” (Nicola Gómez Dávila)

Em época como a nossa, disposta a mudar a natureza do homem, as grandes obras literárias são bússolas seguras que apontam para a sua verdadeira essência e colaboram inegavelmente na tarefa da formação do caráter. Um caráter bem formado, segundo o pensamento clássico, é aquele em que a razão, através das virtudes, se sobrepõe às paixões. Ora, não é objetivo principal da literatura a formação do caráter. Há uma parte da filosofia, a ética, que cuida disto, ou a teologia moral, no caso da pessoa ter fé.

A literatura principalmente apresenta o mundo e a vida. É uma representação da existência humana, um espelho feito com palavras; um  espelho colocado à margem do caminho da vida, como bem viu o escritor Stendhal. Mas não é um espelho que as pessoas contemplam com indiferença. Pelo contrário: elas são envolvidas por aquilo que veem.

E aqui chegamos no ponto decisivo: uma boa obra literária é aquela que envolve o leitor. A prateleira de chocolate, no supermercado, é especialmente visada pois a mistura especial de dois sabores, açúcar e cacau, resultou em algo especialmente gostoso e apetecível.

Um bom romance também tem lá o seu açúcar e o seu cacau. Tem seus ingredientes obrigatórios: enredo bem montado, personagens convincentes psicológica e socialmente, linguagem bem construída. Com esses três ingredientes a chance do chocolate literário atrair o leitor é muito grande. (E aqui é preciso considerar uma coisa importante: em nossa época, não basta a obra literária ser apetecível, pois o leitor está distraído por outros veículos, outros meios de contar histórias, sobretudo o cinema. O escritor tem concorrentes muito mais sérios do que no século XIX.)

Esqueçamos provisoriamente o cinema. Não basta uma obra ser bem escrita e bem estruturada para agir de maneira mais profunda sobre o leitor.  É preciso algo mais: um ingrediente a mais, adicionado ao açúcar de um bom enredo, ao cacau de um personagem bem construído. É preciso que a obra mergulhe nas questões fundamentais da natureza humana: os vícios que atraem as pessoas para o abismo e as virtudes que estendem as mãos para elevá-las. Não há grande romance sem a exploração dos sete vícios capitais (gula, pornografia, consumismo, raiva, inveja, vaidade, preguiça), sempre em tensão permanente com as virtudes opostas (sensatez, força de vontade, equilíbrio emocional, senso de justiça).

O grande escritor não se preocupa com problemas contingentes: miram principalmente as questões intemporais, que fustigam os homens de todas as latitudes e períodos da civilização ocidental. Essa tensão está presente nos grandes clássicos da literatura, em todas as épocas: Homero, Sófocles, Virgílio, Dante, Shakespeare, Cervantes, Dostoiévski etc. O próprio Dante estruturou o Inferno e o Purgatório da Divina Comédia sobre as categorias dos vícios capitais. Idem para as peças de Shakespeare.

Ora, isto se dá porque os grandes escritores estão ligadíssimos na realidade. São “as antenas da raça”, como dizia o poeta Ezra Pound. Constroem seus personagens e enredos olhando firmemente nos olhos do mundo real. É principalmente da realidade, muito mais que da imaginação, que eles extraem os ingredientes do seu chocolate.

Falou certa vez Mark Twain, num prefácio, sobre o seu “método compósito” de criação de personagens: “A maioria das aventuras narradas neste livro [As aventuras de Tom Sawyer] realmente aconteceram. Uma ou duas foram tiradas de experiências minhas, as demais ocorreram a rapazes que foram colegas meus de escola. Huck Finn tirei da vida. Tom Sawyer também, só que, em seu caso, usei de uma combinação de três rapazes que conheci.”

Ninguém tinha os pés mais firmemente plantados no chão do que o romancista brasileiro Carlos Heitor Cony; seu método de criar personagens não devia diferir muito do de Mark Twain. Contou, porém, que está “sempre fazendo romances (…) penso em forma de histórias (…) mesmo nesses vinte e três anos em que passei sem escrever, a cada dia eu pensava ou vivia uma história nova. Só não formalizava em livros. (“A casa, a poesia e a tragédia”, entrevista a André Luiz Barros para a revista Bravo!, p. 100, outubro de 1997, nº 1, ano 1).

Assim são os escritores: cabeça nas nuvens e pés no chão; contudo, a cabeça lá no alto não os impede de ver a realidade como ela é. E se, na concepção dos seus personagens e enredos, trabalham inevitavelmente dentro dos limites da sua experiência pessoal, o conjunto da história da literatura nos apresenta a soma dessas suas contribuições individuais, e o resultado é uma enciclopédia multifacetada do comportamento humano. Quando paro diante da minha estante e olho para as lombadas das obras ficcionais que já li, lembrando-me dos personagens que nelas gravitam, fico pensando como seria pobre minha vida se não tivesse conhecido todo aquele pessoal imaginário — gente de todos os vícios e todas as virtudes. Na minha estante, estão todas as experiencias imaginarias possíveis com pessoas. Como eu teria conhecimento disso tudo, sem o auxílio das experiências pessoais de cada um daqueles escritores que já nem estão mais neste mundo?

Enfim, quando a barra de chocolate literário contém todos esses ingredientes — bons personagens, bom enredo, linguagem elegante, verossimilhança e profundidade existencial — inevitavelmente vai apetecer o paladar dos leitores, especialmente os descontentes com os “limites de sua experiência pessoal”.

O poeta latino Horácio já dizia que a boa obra literária pode deleitar e instruir, docere et delectare. Docere (ensinar) e conducere (conduzir) são palavras irmãs em latim. Ensinar, portanto, é o mesmo que conduzir. A grande obra literária tem tudo para ser uma boa guia na selva selvagem da vida, mesmo que esse aspecto “docente” da literatura não possa ocorrer de forma ostensiva e conceitual, como nas demais disciplinas humanísticas (filosofia, antropologia, sociologia, psicologia, historiografia etc.).

O conhecimento, através das obras literárias, se dá de forma mais intuitiva do que conceitual. “A ciência enriquece a inteligência; a literatura enriquece a personalidade inteira”, disse certa vez Nicolas Gómez Dávila. O mandamento socrático do “conheça-te a ti mesmo” não pode se realizar plenamente, se o leitor permanecer limitado às ciências humanas. Uma verdadeira formação humanística exige uma compreensão mais abrangente da personalidade humana, e isto só as grandes obras literárias podem oferecer. Num bom romance, o leitor vai encontrar psicologia, sociologia, filosofia… E, sobretudo, um sentido mais profundo da ordem: ler é exercitar o ordenamento das ideias e das paixões. Todo romance aspira retornar, no final do enredo, à ordem interrompida pelo conflito inicial da trama. Ao contrário dos niilistas modernos e pós-modernos, o escritor geralmente é um ser racional e, portanto, tende mais à ordem que ao caos.