dom hervé

[Trechos da homilia de Dom Hervé Courau na festa da Assunção. Além de abade beneditino do Mosteiro de Nossa Senhora de Triors, nos pés dos Alpes franceses, Dom Hervé é também musicólogo gregoriano].

A vida eterna é o grande dom que recebemos das mãos de Deus; um dom e não uma dívida, uma graça a ser buscada com humilde respeito. No entanto, por meio de uma estranha inversão de valores, esse desejo de eternidade parece estranhamente ausente ao nosso redor. O homem, com efeito, parece satisfeito com a sua sorte, convencido de que tudo está bem do jeito que está. O que fazer, então, com o outro mundo?

A falta de transcendência não parece incomodar nem um pouco a mentalidade atual. Diante de nossos olhos, o universo muçulmano agora parece o único interessado nas coisas do além, embora a ideia que o Islã tem do céu seja muito caricatura e estreita, sem dimensão sobrenatural.

Seja como for, o homem que acredita ser tão livre despreza, no mesmo movimento, tanto o passado como o futuro eterno, desperdiçando assim o presente.

O maior adversário atual do Cristianismo não é tanto o ateísmo, mas sobretudo a recusa da Encarnação: porque se Deus se encarnou em Maria, e veio até nós, foi para nos abrir o céu e suas inefáveis perspectivas.

“Nada é mais importante para um homem do que o seu estado atual, assim como nada é mais temível, para ele, do que a eternidade… É uma coisa monstruosa ver, no mesmo coração e ao mesmo tempo, essa sensibilidade para as menores coisas e essa estranha insensibilidade para as maiores.” (Pascal, Pensamentos)

A noite se aproxima e o dia já termina: com este livro, publicado no ano passado, o cardeal Sarah despertou as nossas consciências. A partir de então, essa curiosa e misteriosa pandemia corroborou suas intuições. Um manto de angústia se impôs sobre nós, pois um simples vírus foi suficiente para nos mostrar como nossa vida é frágil e a morte não está tão distante assim. A questão da vida eterna não pode deixar de surgir, observou ele, quando somos informados, todos os dias, sobre um grande número de contágios e mortes.

Esta sociedade autoconfiante não pode mais esconder o fato de que somos mortais, embora fiquemos tão pouco à vontade para falar sobre isso. No entanto, Maria interfere na provação, que não é nem uma armadilha nem um beco sem saída.

O Padre Lethel, um grande carmelita, viu em seus 17 dias de hospital seu maior ato de caridade sacerdotal. Uma criança, que morreu de Covid, disse com a sabedoria da fé: “Mamãe, todos rezam pela minha recuperação. É preciso pedir coisas importantes, como a vida eterna”.

A morte ronda. E continuamos a dançar na borda do vulcão que procuramos negar.

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