Padre Federico Highton

[Padre Federico Highton também é advogado, formado pela Universidade de Buenos Aires (UBA), doutor em filosofia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (APRA, Roma) e professor associado da Universidade Unicervantes. Desde janeiro de 2014, ele tem feito missões em terras pagãs. É o diretor e missionário do Projeto Omnes Gentes (OGP), plataforma que, por meio de expedições apostólicas, leva a fé cristã a tribos ou aldeias, que ainda não conhecem Jesus, no Himalaia, na Indochina, na savana africana e em outros lugares].

Em Lachunn, ficamos na casa de nosso “amigo” Tenzig, que é filho de um lama casado (nem todos os monges são celibatários). A casa do nosso anfitrião é um exemplo claro do tradicionalismo tibetano da aldeia. Sua família preservou rigorosamente as tradições budistas por muitas gerações. Quando entrei em sua casa — que é um hotel, como a maioria — a primeira coisa que ele me mostrou foi a “puya room”, ou seja, a sala de rituais. Não podemos chamá-lo de oratório, pois eles não oram no sentido estrito da palavra. Os “puya room” são basicamente todos iguais, igualmente assustadores. Tenzig me disse que os rituais ajudam a protegê-los dos demônios. E já sabendo do que se tratava, tivemos o seguinte diálogo, do qual transcrevemos o essencial.

— Os rituais nos protegem dos espíritos malignos.

— Dos demônios?

— Sim exatamente.

— Como você se protege dos demônios?

— Fazemos oferendas a eles.

— Você faz ofertas aos demônios para adorá-los?

— Sim, para adorá-los.

— Que tipo de oferendas fazem?

— Oferecemos tudo o que nos pedem.

— Sacrifícios de animais?

— Sim, também. Em nossa casa, oferecemos aos demônios (ou ao demônio em nossa casa) um iaque por ano.

O iaque é um animal da região.

— Primeiro, oferecemos o iaque aos demônios e depois aos deuses.

Tão profunda é a demonolatria no budismo tibetano que, como afirma Kasptein, “sem a cooperação dos espíritos locais, a comunidade não pode esperar alcançar a prosperidade” [1].

Observe-se a ordem metafísica e de prioridades: primeiro se honram os demônios, depois os deuses. É certo, absolutamente certo, que os deuses não existem, porém não deixa de ser muito significativo que privilegiem honrar os demônios em vez dos (por eles reputados) deuses.

Tudo isso nos lembra o que Santo Tomás de Aquino ensinava (Comentário sobre o Credo, a. 1, n. 20): “[Todo o esforço do diabo] consiste em fazer-se adorar pelos homens e que lhe ofereçam sacrifícios: não que se deleite com um cão ou um gato que lhe são oferecidos, mas antes se deleita por ser reverenciado como a Deus, como ele disse ao próprio Cristo (Mateus 4, 9): “Tudo isso te darei se, prostrado, me adorares”. Por esta mesma razão os demônios entravam nos ídolos e davam indicações para serem venerados como deuses. Salmo 95, 5: “Todos os deuses das nações são demônios.” E o Apóstolo diz em 1 Cor 10, 20: “Mas o que os gentios imolam, imolam aos demônios, e não a Deus!”

Para recapitular, muitas famílias tibetanas estabelecem contratos multigeracionais com um demônio do inferno. Mas por quê? Porque eles querem que aquele demônio ajude a sua família e, também, para apaziguá-lo. Eles acreditam que não podem revogar o contrato, já que, em caso contrário, o demônio se vingará terrivelmente.

Não se pense que esta é uma prática isolada no mundo tibetano. Com efeito, como afirma o “texto-tesouro” bön sobre o Segundo Buda, este orou a todas as “divindades da família de Buda” [2].

Mas, para o budismo tibetano, não existem apenas demônios protetores de famílias, mas também demônios protetores do budismo. A literatura budista abunda neste tipo de menções, como podemos ler, por exemplo, nas histórias de J. Kongtrul, que chega a afirmar que Guru Rinpoché instalou vários espíritos arrogantes “como guardiães da doutrina budista” [3] ; forçou, sob juramento, vários espíritos mundanos, como os chamados “guardas dos dezesseis punhais”, a ser guardiões do budismo [4]; a toca do Tigre (Tiger Nest) é o lugar mais “sagrado” no Reino do Butão, pois eles acreditam que Guru Rinpoché voou até lá montado em sua esposa, transformada em tigresa, e que lá ele subjugou um demônio e o transformou em um guardião dos textos-tesouros budistas, embora, de acordo com Kongtrul, ele não tenha subjugado apenas um demônio, mas todos os deuses arrogantes — maiores e menores — e todos os demônios-canibais do Tibete, os quais, desde então, se tornaram os protetores daqueles livros “sagrados” budistas [5]. Taranata, em seu texto de louvor ao Guru Rinpoché, afirma que este guru “empregava em seu serviço os nagas e os portadores de maldade” [6].

De acordo com o relato de Taranata, Guru Rinpoché, em uma zona glacial, converteu um demônio serpentino ao budismo [7]. Na verdade, para o budismo, existem demônios budistas. Além disso, como Kapstein aponta, o Guru foi chamado ao Tibete “para reprimir os espíritos hostis e divindades do Tibete a fim de ganhar sua lealdade ao budismo” [8], ou seja, o Segundo Buda foi chamado ao Tibete para que haja demônios budistas.

Sera Khandro — em um “texto-tesouro” — afirma alegremente que alguns demônios-canibais “aceitaram a responsabilidade de proteger a doutrina budista” [9]. No mesmo texto, cita Guru Rinpoché, que promete a seu discípulo Pema que dakinis (“demonesas”) das quatro classes virão de forma visível para saudá-lo [10].

Além disso, vamos mencionar que embora, de acordo com o budismo tibetano, quase todos os mamos sejam demônios raivosos que habitam os durtros e causam guerras — especialmente cósmicas — e pestes, os lamas ensinam que os mamos [seres malignos] podem ser benéficos para os meditadores budistas [11].

No budismo tibetano, pode-se até tentar entrar em transe para ter contato com seres demoníacos (a menos que tenhamos outro adjetivo para entidades abissais como “Yama, o senhor da morte”). Na verdade, como Kapstein relata, no Tibete acredita-se na história de Chowang, que entrou em transe para lidar com Yama (o senhor da morte ou, de acordo com Roebuck, “o deus da morte” [12]) e, graças a esse esforço, ela conseguiu fazer com que sua mãe, que estava no purgatório pagando pelas faltas de seu esposo (e a justiça?), se reencarnasse em um cachorro [13]. É o mundo dos loucos… e dos demônios. É o mundo do budismo.

O mito Chowang é interessante, já que ele negocia com Yama, quando Buda pede para derrotar Yama: “Quem conquistará esta terra e este mundo de Yama com seus deuses?” [14]. Chowang vai para Yama, mas de acordo com Buda, devemos ir aonde Yama não possa nos ver: “Vá aonde o Rei da Morte não pode te possa ver” [15].

Notas

[1] Kapstein, M., Tibetan Buddhism. A very short introduction, Oxford, NY 2014, 7: «without the cooperation of the local spirits, the community cannot hope to achieve prosperity».

[2] Cf. Wongpo, J.K., The Bon version of the life of Guru Rinpoché. The treasury of rediscovered teachings, v. 39, Paro, Bhutan, Ngodup-Sherab Drimay, 1976 (traducido y publicado en Zangpo, N., Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002), 221: «Buddha family deities, to you I pray ».

[3] Kongtrul, J., History of the sources of the profound treasures and the treasure revealers. The treasury of rediscovered teachings, v.1, Paro, Ngodup-Sherab Drimay, 1976 (traducido y publicado en Zangpo, N. (H. L. Thompson), Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002, 122).

[4] Cf. Kongtrul, J., History of the sources of the profound treasures and the treasure revealers. The treasury of rediscovered teachings, v.1, Paro, Ngodup-Sherab Drimay, 1976 (traducido y publicado en Zangpo, N. (H. L. Thompson), Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002, 123).

[5] Cf. Kongtrul, J., History of the sources of the profound treasures and the treasure revealers. The treasury of rediscovered teachings, v.1, Paro, Ngodup-Sherab Drimay, 1976 (traducido y publicado en Zangpo, N. (H. L. Thompson), Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002, 126).

[6] Taranata, The Indian Version of the Life of Guru Rinpoché. The Treasury of Rediscovered Teachings, v. 1., Paro, Bhutan, Ngodup-Sherab Drimay, 1976 (traducido y publicado en Zangpo, N., Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002), 160: «he employed the nagas and evil harm-bringers as his servants».

[7] Cf. Taranata, The Indian Version of the Life of Guru Rinpoché. The Treasury of Rediscovered Teachings, v. 1., Paro, Bhutan, Ngodup-Sherab Drimay, 1976 (traducido y publicado en Zangpo, N., Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002), 168.

 [8] Kapstein, M., Tibetan Buddhism. A very short introduction, Oxford, NY 2014, 16: «to quell the hostile spirits and divinities of Tibet in order to win their allegiance to Buddhism».

[9] Cf. Khandro, S., The Immaculate White Lotus by Dorjé Tso. The collected revelations of Sera Mkha-gro Bde-chen-rdo-rje, v.1,, Kalimpong, India, Dupjung Lama, 1978 (traducido y publicado en Zangpo, N., Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002), 137.

 [10] Cf. Khandro, S., The Immaculate White Lotus by Dorjé Tso. The collected revelations of Sera Mkha-gro Bde-chen-rdo-rje, v.1,, Kalimpong, India, Dupjung Lama, 1978 (traducido y publicado en Zangpo, N., Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002), 149.

[11] Cf. Zangpo, N. (H. L. Thompson), Guru Rinpoché. His Life and Times, Snow Lion, New York 2002, 301.

[12] V. Roebuck, Glossary, en Buddha [?], The Dhammapada, Penguin, London 2010, 104: «the god of Death».

[13] Cf. Kapstein, M., Tibetan Buddhism. A very short introduction, Oxford, NY 2014, 104-105.

[14] Buddha [?], The Dhammapada, Penguin, London 2010, 11: «who will conquer this earth and this world of Yama with its gods?».

[15] Buddha [?], The Dhammapada, Penguin, London 2010, 11: «go where the King of Death can’t see you»

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