igreja auto-exilada

O número 509 da revista Il Mulino, já em distribuição, é inteiramente dedicado a “E agora? Itália pós-pandemia”. Como se sabe, a revista bolonhesa é uma porta-voz do progressismo em geral e católico em particular, apoiada pelo prestígio das Edizioni del Mulino: mais ou menos toda a intelectualidade que conta [na Itália] é publicada por essa editora. Marcello Neri, teólogo e professor do Instituto G. Toniolo de Ciências Religiosas, de Modena, escreve um artigo com um título interessante: “A religião inútil” (pp. 489-496). Vamos ver por que é “inútil” (segundo ele e segundo nós).

Durante o estado de emergência do coronavírus, muitos, inclusive a nossa Nuova Bussola Quotidiana, haviam criticado a Igreja italiana exatamente por isto: ter demonstrado a inutilidade da religião (católica). Fechou as igrejas antes que o governo lhe pedisse; aceitou a intromissão da legislação civil no campo litúrgico; aceitou a violação dos acordos de 1984 entre a Itália e a Santa Sé; não disse nada diante de regras aparentemente absurdas e ilógicas; não reagiu, apesar de ser tratada muito pior que as pizzarias; aplicou regras ainda mais restritivas do que as promulgadas, tornando-se uma Igreja do Estado; não criticou a falsidade instrumental da confiança dos políticos nos ditos especialistas; indicou no respeito à distância social a forma de testemunhar o amor ao próximo, sem pensar que colaborava, desta maneira, com as consequências negativas das próprias medidas; aceitou as decisões administrativas como verdades absolutas e, sobretudo, declarou que Deus nada tem a ver com a pandemia, e, a rigor, seria até inútil.

O meu pároco repetiu várias vezes, do altar, que Deus não nos castiga com dificuldades, e nos dá força para as enfrentar. Assim, Ele não é mais o Onipotente, mas se torna uma espécie de animador moral e social. Tudo o que Ele pode fazer, o faz através de nós, ou seja, Ele não pode fazer mais nada. Trata-se, de fato, de um Deus imanente e não mais transcendente. É um Deus impotente: a salvação já não provém Dele, mas dos médicos e do governo. A religião, portanto, exilou-se a si mesma: as igrejas estiveram fechadas, sem procissões propiciatórias, sem orações.

Também nós censurávamos o fato de a Igreja ter promovido uma “religião inútil”. E agora Il Mulino também o faz, com a ressalva de que, para a revista do neo-iluminismo italiano, o fato de a religião haver decidido ser inútil é um bem; na verdade, um dever da Igreja. A constatação é a mesma nossa, mas a avaliação é oposta. E isso nos diz que não foi por acaso que a Igreja optou por ser inútil na pandemia, mas por motivos teológicos, ao contrário daqueles (como nós) que reclamaram dessa “opção pela inutilidade”. Também neste caso se evidenciam duas teologias antitéticas, como infelizmente agora somos obrigados a verificar em todas as áreas da vida da Igreja.

Marcello Neri explica por que a religião deve se tornar inútil. A Igreja deve abandonar o “paradigma da necessidade”, isto é, da presunção de que é necessária para o mundo; e deve aceitar a sua “não imunidade aos assuntos humanos”, ou seja, não se considerar acima da história, porque “ela já não é mais necessária ao homem, o qual há séculos aprendeu a fazer e a viver sem ela”.

Supondo que essa constatação seja pertinente, permanece, porém, apenas uma constatação de fato: confundi-la com uma observação de valor (isto é, que seja exatamente assim) é historicismo. Como historicismo é também pensar que Cristo não seja mais “necessário” e que o Cristianismo não diz nada que não seja histórico. Ao contrário, Cristo tem “palavras de vida eterna” e de suas palavras nem um só pingo mudará.

Para Neri, a religião deve transformar-se, aceitando ser “proximidade religiosa do humano”, isto é, estar humanamente ao lado do homem sem lhe falar da salvação de Cristo; e deve “fazer um pacto com outras religiões em nome da fraternidade entre povos e culturas, esboçando o imaginário de uma possível religião ainda por vir”. A Igreja não deve mais “construir mundos paralelos” (só existe um mundo, o da história profana), nem fazer valer “seus direitos exclusivos de salvação” (a salvação é para todo o mundo…).

Tratar-se-ia precisamente de uma religião inútil, visto que para esses fins bastaria um humanismo genérico, uma capacidade de intervenção “a favor do humano comum a todos nós”. É uma pena que este “humano” se perca sem a luz de uma religião que pretenda ser verdadeira em um sentido transcendente e absoluto; uma religião que quer ser salva pelo homem em vez de salvá-lo. Ou que deseja ser salva por outras religiões, em vez de pretender que as salvará, construindo uma “possível religião ainda por vir”. Os dogmas da religião católica têm um enorme efeito histórico precisamente por não ser apenas históricos.

Grande parte da teologia católica é, agora, ateísta (no sentido de que Deus não deve mais ser visto na história, porque é alheio à “lógica causal com a qual ligamos os acontecimentos”). Esta é a tese de Ernst Bloch, segundo a qual apenas o cristão pode ser um bom ateu, porque o Cristo, na cruz, é o homem que se colocou no lugar do pai. Na cruz, Deus teria se esvaziado (Kenosis) de si mesmo e se tornado inútil.

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