Jean-Claude-Romand

A Abadia de Nossa Senhora de Fontgombault, na França, é ligada à congregação de Solesmes e conta hoje com quase setenta monges. Praticam atividades artesanais e agrícolas, celebram Missas no rito antigo e procuram reviver a regra de São Bento numa França cada vez mais desinteressada das coisas católicas.

A história desse mosteiro é um resumo do que foi o cristianismo no último milênio. Começou a ser construído, em estilo românico, início no século XII. Os protestantes no século XVI e a Revolução Francesa no final do século XVIII tentaram destruí-lo. De lá para cá, foi depósito de pedras, destilaria de bebida, fábrica de botões, hospital de campanha e, finalmente, em 1948, voltou a ser o que era: trincheira católica no século que assistiria à maior deserção da fé jamais vista na história da França.

O povoado de Fontgombault, tranquilamente situado no vale do rio Creuse, não tem mais de trezentos moradores e nada produz que mereça sair no noticiário nacional. No entanto, a abadia esteve nas páginas dos jornais franceses, em 2019, por outro acolhimento bem mais polêmico: passou a abrigar entre suas vetustas e silenciosas paredes o preso em liberdade condicional Jean-Claude Romand, um dos criminosos que mais escândalo provocou no país, nas últimas décadas.

Romand, casado e com dois filhos, foi um homem que mentiu obsessivamente por quase vinte anos. Fez-se passar por médico (não tinha ido além do segundo ano de medicina) e pesquisador da OMS. Suas fontes de renda eram a venda de medicamentos falsos contra o câncer, que vendia a altos preços, e o dinheiro que arranjava com os mais próximos, entre eles a amante, sob o pretexto de investir na Suíça.

Quando as pessoas foram descobrindo quem ele era, as cobranças dos empréstimos se amiudaram e sua família estava prestes a descobrir toda a verdade, assassinou no dia 9 de janeiro de 1993 aqueles a quem dizia mais amar — aqueles que, seguramente, mais o amavam no mundo: mãe, pai, esposa e dois filhos pequenos. No dia seguinte, aquele homem de trinta e nove anos incendiaria a própria casa e tentaria suicídio, engolindo todos os comprimidos de barbitúricos que tinha à mão. Encontrado inconsciente pelos bombeiros, foi por eles reanimado e, contra a própria vontade, sobreviveu à tragédia que tinha acabado de encenar.

Isto, em síntese, foi o que aconteceu antes de 1993. Entre 1993 e 2019, o “quíntuplo assassino” (assim o tem chamado a imprensa francesa) esteve recluso numa prisão, da qual saiu condicionalmente, com uma pulseira eletrônica de vigilância, direto para a Abadia de Fontgombault, onde com algumas restrições passaria os dois anos seguintes. É lá que se encontra neste momento: no ora et labora dos monges beneditinos, compartilhando com eles o silêncio milenar do velho mosteiro, depois da já distante conversão ocorrida logo no início do cumprimento da pena.

Indagado sobre a razão e os riscos de tão inusitada acolhida, o abade do mosteiro só teve uma palavra: “Evangelho”. Depois da justiça humana, era chegada a vez da misericórdia divina na vida daquele homem.

De fato, alguém como Jean-Claude Romand, que se aproxima dos setenta anos, e fez o que fez, e passou pelo que passou, não tem mesmo outra alternativa, na vida, que procurar a santidade. “Vinde a mim os mais pequenos”, dizia Jesus. Ninguém é menor, neste mundo, do que Jean-Claude Romand.

Quem o receberá em sua casa? Quem lhe dará emprego? Quem terá coragem de ser seu amigo, além daqueles três ou quatro visitadores católicos que, durante vinte e seis anos, acompanharam semana a semana a sua conversão? Ninguém se atreve a perdoar esse homem que assassinou os seus mais próximos, nem mesmo a mídia e os intelectuais progressistas, que também tudo fazem, hoje em dia, para destruir a família.

Só Deus é capaz de tudo perdoar (“tudo, tudo, sempre, sempre”, como escreveu Alessandro Manzoni em seu romance Os noivos). Expressão dessa misericórdia divina foi a atitude receptiva e protetora dos beneditinos de Fongombault, que em meio aos riscos e mistérios da alma humana abriram as portas de sua antiga casa aos mais marginal de todos os marginais — por mais que Jean-Claude aparente ser o mais normal de todos os sujeitos da classe média.