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Ao chegar no Brasil, em 1938, o escritor católico francês Georges Bernanos recusou convites para se instalar no Rio, onde viveria permanentemente incensado pelos novos amigos, geralmente velhos admiradores de sua obra, que o explorariam sem descanso. Pelo menos, era assim que pensava Gustavo Corção, quando certa vez o visitou no Rio e o viu assediado pelos fãs:

“Bernanos pareceu-me uma montanha. Estava sendo explorado. Estava sendo escalado, percorrido, sondado por mineiros ávidos de novos filões. Ou então era um navio, um enorme e velho navio de muitas viagens, que tivesse encalhado ali em país exótico, com os porões abarrotados de tesouros…”

Era preciso “economizar” Bernanos, sugeriu Corção. Foi sem dúvida por isso que ele deu o fora do Rio, já prevendo o que ocorreria se permanecesse perto das rodas intelectuais: deu as costas à agitação litorânea e tratou de enfurnar-se no interior para “economizar-se”, primeiro em Pirapora, norte de Minas, às margens do São Francisco, e depois em Barbacena, ao sul, entre São João del Rei e Juiz de Fora, mais próximo do Rio. Ninguém era mais avesso à República das Letras do que ele.

Fato curioso, por certa dose de romanesco que continha, foi o primeiro encontro de Georges Bernanos, em Barbacena, com um jovem advogado mineiro, que depois seria um de seus principais amigos no Brasil e romancista de talento. Era Geraldo França de Lima, amigo pessoal de Guimarães Rosa, que atuava como professor na escola pública da cidade, então recém nomeado pelo governador Benedito Valadares. Ele próprio narrou o encontro:

 Uma tarde bem fria de julho, aproveitando um restinho de sol, eu me achava sentado num banco do jardim de Barbacena, lendo uma revista, por sinal o último número que recebi do Mercure de France. Tive a atenção voltada para um vulto que se aproximava: alto, corpulento, apoiado em duas bengalas, que com dificuldades se encaminhava para o banco em que me encontrava. Mais do que as duas grossas bengalas e a sua cabeleira revolta, branca, chamavam a atenção seus olhos violáceos impregnados de fogo, de combatividade, de vida. Sentou-se a meu lado. Acomodou no chão as bengalas e tendo percebido que eu parara a leitura, disse-me:

– Je vous dérange… Pardon… [Estou te incomodando… Desculpa].

 Ficou surpreendentemente sabendo, logo em seguida, que o homem das bengalas era Georges Bernanos, de quem o jovem era grande admirador: por mais de uma vez, tentara sem sucesso encontrar-se com o ídolo literário. Aquele diálogo, que se iniciara na tarde fria de Barbacena, só se interromperia com a mudança de Bernanos para o Rio, em 1944.

Geraldo França de Lima escreveu um belo depoimento sobre sua amizade mineira com Bernanos, pelo qual ficamos conhecendo um pouco de sua história na pequena cidade: seu sofrimento com a situação da França ocupada e os futuros conflitos do escritor com algumas pessoas da cidade, forçando-o a mudar-se dali em 1944.

Admirável, também, é o retrato do escritor feito pelo amigo mineiro: as suas grandes explosões de cólera contra a mediocridade e a voz profética, sempre procurando avisar e prevenir sobre futuro do Ocidente que, perdendo o Cristo, inevitavelmente decairia. O escritor que “ousou dizer o escândalo da verdade, e ousou sondar o escândalo da santidade”, nas palavras de Gustavo Corção, não precisaria de muito esforço para imaginar qual seria o futuro da aventura humana. Em muitas previsões acertou: como consequência do ateísmo materialista, a eutanásia e o aborto ainda seriam considerados as coisas mais normais do mundo… E acertou infelizmente sobre o seu próprio fim: jurava que sofria de um câncer no fígado, e seria disso que morreria, alguns anos mais tarde, já de volta à França.

Bernanos, com seus “altos e baixos, decepcionado e desconfiadíssimo”,  era um extrovertido que pensava em voz alta, um vulcão ativo: “…exprimia-se sem meias-palavras, sem rodeio, aos gritos, com gestos fortes”. Segundo Geraldo França de Lima, seu estilo literário era a mais pura expressão do seu temperamento eruptivo. Como poderia um homem com este teor vulcânico viver mais de sessenta anos?