chesterton

A única coisa que se deveria proibir, num escritor, é ser enfadonho. Era o que pensava essa poderosa unidade pensante chamada Chesterton, que seduziu gente tão diversa, como Gramsci, Garcia Marquez, Borges ou o nosso Gustavo Corção (grupo que ninguém imaginaria reunido, ao mesmo tempo, numa mesa de boteco em Beaconsfield, ao lado do faminto e sedento escritor).

A frase muito citada de Jorge L. Borges sobre o escritor inglês  — “Talvez nenhum escritor me tenha proporcionado tantas horas felizes como Chesterton” — é uma isca importante para atrair, à sua obra, leitores ateus, agnósticos ou religiosamente indiferentes; e caírem, para sempre, na arapuca liberadora de Deus. Não deu certo, infelizmente, com Antonio Gramsci e Gabriel Garcia Marquez, que passaram divertida, mas impunemente por Chesterton.

Borges, que é uma das principais pontes ligando  Chesterton a um público mais secularizado, nunca teve preconceitos com quem viesse na contramão. O grande escritor argentino, para quem o cristianismo era uma ideia indefensável, defendia o cristão Chesterton dos maus católicos e do próprio Chesterton… Viu bem o “engajement” do escritor inglês, não só na apologética como na literatura de criação, e até nas histórias policiais, nas quais lamentava a intenção moralizante que as rebaixava, em sua opinião, a meras parábolas. Exultava, porém, que o escritor nunca o lograsse totalmente, e essa “falha” de Chesterton — Chesterton não conseguir ser completamente Chesterton — era a razão de ser das melhores horas de leitura na vida de Borges.

Ora, o próprio Borges admitia ser o catolicismo de Chesterton algo orgânico e visceral, que o fazia sentir-se tão cômodo em sua crença do Céu e dos anjos, que podia dispensar a muleta escolástica. Mas era justamente essa organicidade católica que o impelia aos contos parabólicos, ao apostolado implícito, à catequese disfarçada (não queria que só lhe admirassem o estilo, mas sobretudo lhe seguissem as ideias), pois o homem de letras que acredita, diante da possibilidade de perder a alma ou salvar seu texto, deve escolher a salvação da alma, ainda que o condenem ao inferno da história literária, à indiferença da crítica e à condenação dos bem pensantes. Entre a literariedade tão cara aos teóricos da literatura e o reino de Deus, Chesterton não hesitou: o Céu das almas era muito mais importante que o céu das letras.

Chesterton sem parábolas engajadas em Cristo seria o mesmo que uma bola sem esfericidade. Por menos que gostemos do verbo “engajar”, sobretudo pela azeda  impregnação sartreana, Chesterton não foi outra coisa que um escritor altamente comprometido com suas ideias, vividas a cada segundo, com a ressalva de ter escolhido a única doutrina que jamais desapontará quem nela se engaje.

Borges teve insights brilhantes sobre estilo chestertoniano, em que o “humour” era premissa fundante. O mesmo riso que, a partir do “século das luzes”, passou a ser usado contra a Igreja, por Swift, Gibbon, Voltaire & Cia., Chesterton empregaria astutamente contra os inimigos de Roma. Convertido pelos paradoxos do cristianismo, esse apóstolo em época de apostasia descobriu uma linguagem apostólica adequada à nossa época, sustentada por humor inglês da melhor cepa.

Borges enxergou, com lucidez, uma espécie de felicidade infantil brilhando em cada página do escritor inglês, em que a grande força visual, quase barroca, não eliminava a clareza latina; felicidade infantil a que juntou o adjetivo “divina”, fruto, sabemos nós, daquela organicidade católica e de sua permanente alegria de acreditar em Deus.