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É com assombro e tristeza que se recebe uma notícia como a seguinte: em países como Estados Unidos, Dinamarca, Itália, Alemanha, França, Suíça, Inglaterra, Bélgica e Islândia — representantes escolhidos a dedo do que chamaríamos de civilização ocidental —, a grande maioria dos fetos com síndrome de Down é assassinada no ventre materno.  A própria Islândia, há alguns anos , se orgulhava miseravelmente de ter praticado cem por cento de abortos em mães com essa espécie de gestação. Uma pobre ilusão eugenista, de quem acredita criar uma sociedade mais bela e perfeita fundada no holocausto silencioso do aborto.

São lugares, curiosamente, em que o “mercado pet” (comércio de mascotes, sobretudo cães e gatos), gerou uma indústria muito sofisticada, com toda sorte de produtos para esses animais, e, talvez por isto, provocou grandes avanços na medicina veterinária. Há hotéis para animais que não podem viajar com seus donos… Há UTIs para animais em fase final de doenças incuráveis… O afeto por bichos nunca atingiu, antes, temperaturas tão elevadas.

Eugenismo, animalismo… Será mera coincidência a analogia dessas tendências com o que pensavam os nazistas ao redor de Hitler, há quase um século?

No entanto, ainda há pessoas no mundo que se orgulham de coisas diferentes, como criar esses desprezados bichinhos humanos com síndrome de Down, por mais complicado e menos poético que isso pareça. Um exemplo admirável é o caso do jovem americano Emmanuel Joseph Bishop, nascido em 1996 na cidade de Grafton, na Virgínia. Os pais católicos, em vez do aborto, aceitaram obedientes o estranho dom de Deus e passaram a tratar o pequeno Emmanuel como aquilo que ele realmente é: um ser humano com muitos problemas físicos e psíquicos, mas dotado de alma imortal.

Começou a ser alfabetizado pela própria família já aos dois anos de idade. Com seis anos, já lia pequenos. Aos oito anos, já andava de bicicleta. Aos nove anos já era coroinha em sua paróquia católica. Ganhou medalhas de natação em paraolimpíadas dos EUA. Foi então que começou a aprender violino. Obviamente, Emmanuel não é um Yehudi Menuhin ou um Isaac Stern, mas é encantador ver aquele rapaz de olhos achinesados, quase engolidos pelas pálpebras, ajeitando entre o ombro e o queixo o violino (instrumento nada fácil de tocar), retesando o arco, ferindo as cordas.

O caso desse jovem católico americano mostra como é possível superar, de forma admirável, certos limites que a natureza impõe às pessoas. Evidentemente, nem todos conseguirão tocar violino ou ganhar medalhas como ele, mas nada disso é necessário para, enfim, tornar merecedor do dom da vida o mais humilde dos portadores desse mal, apesar de vários países já contarem com legislação favorável ao aborto em caso de síndrome de Down. Enquanto no país de Emmanuel Joseph Bishop a maioria dos fetos com a sua doença é assassinada no ventre das mães, essa família mostrou que a espécie humana ainda não está completamente rendida ao mal e ainda pode conjugar o verbo amar — com todo o sacrifício exigido pelo amor.

Exemplos como este não são poucos na internet. Na França, na cidade de Le Blanc, Indre, foi instalada uma comunidade que acolhe meninas com síndrome de Down que queiram seguir a vocação religiosa. São as Pequenas Irmãs Discípulas do Cordeiro — ordem fundada em 1985 por irmã Line —, que recebeu aprovação definitiva de Roma em 2011. Inspirada na “pequena via” de Santa Teresinha, segundo a qual a união com Deus pode se dar a partir das coisas mais insignificantes do dia a dia, a regra de vida do instituto adapta-se, evidentemente, às condições de saúde das jovens, com estruturas apropriadas aos cuidados que merecem.

A comunidade das Pequenas Irmãs Discípulas do Cordeiro se beneficia da proximidade geográfica e da direção espiritual da abadia dos monges beneditinos de Fontgombault, que celebram Missas no rito antigo e procuram reviver com seriedade a regra de São Bento numa França desoladoramente anticristã.

Numa sociedade cada vez mais utilitarista, são pessoas como os pais do jovem Emmanuel Bishop, ou religiosos como Irmã Line e os monges de Fontgombault, que mantêm viva a chama da caridade cristã e a levam adiante, protegendo-a da ventania materialista, e, mesmo com dificuldade, conseguem passá-la acesa às gerações seguintes.