pontificia academia pro vita

[O novo documento da Pontifícia Academia para a Vida sobre Covid-19 é embaraçoso: não diz nada, nada sobre a vida e nada de católico. Pede a conversão ao meio ambiente e mais solidariedade, excluindo-se inteiramente a dimensão religiosa. É um documento que agradará a muitos personagens de relevo no poder global].

Infelizmente, a Academia Pontifícia para a Vida [instituto de pesquisa científica criado por João Paulo II em 1995] publicou outro documento sobre o Covid-19. Ela já havia escrito um em 30 de janeiro de 2020 e agora volta ao tema com o título “Humana communitas na era da pandemia: considerações intempestivas sobre o renascimento da vida”. Também esse documento — como o anterior — não diz nada: acima de tudo, nada diz sobre a vida, de cujo âmbito essa pontifícia academia está encarregada, e não diz nada de católico, ou seja, inspirado pela Revelação de Nosso Senhor.

Gostaríamos de saber quem realmente escreve esses documentos. Da forma como está redigido, parece redigido por funcionários anônimos de uma anônima instituição de pesquisas sociológicas. Seu objetivo é cunhar slogans que retratem inesperados processos em curso. Veja o leitor, por exemplo, a seguinte passagem: “Saímos de uma noite de origens misteriosas: chamados a estar além de qualquer escolha, logo chegamos à presunção e às reclamações, reivindicando como nosso aquilo que apenas nos foi confiado. Tarde demais, aprendemos a aceitar as trevas de onde viemos e às quais retornaremos “. Eu li o documento inteiro: garanto que o tom é esse do começo ao fim. Vamos nos acostumar com um nível tão baixo de documentos eclesiásticos?

Pergunta-se por que eles são redigidos assim. Para ser preciso, essa é a verdadeira razão pela qual nos submetemos, apesar de tudo, ao tédio de sua leitura: para procurar compreender por que uma instituição da Santa Sé deve escrever um documento sobre a pandemia com a mesma linguagem de qualquer escritório de qualquer agência internacional, com as mesmas frases abstrusas, a mesma falta de princípios de referência que não sejam genéricos, as mesmas piscadelas aos poderosos do mundo enquanto se gabam de defender os fracos, as mesmas propostas indecifráveis (coisas como “ética de risco”, ou puramente retóricas como “estratégia global coordenada” ou “desafio ético multidimensional”).

No documento, não se faz nenhuma referência explícita ou implícita a Deus. Segundo a Academia Pontifícia, a pandemia não se presta a nenhuma reflexão de teologia da história: Deus não se encontra na pandemia, a qual não deve ser vista como um evento natural, mas como um fato histórico e social que põe em questão nossas responsabilidades. Não sendo um fato natural, não se deve buscar em Deus criador a sua causa, e nem que Ele a tenha permitido. Portanto, deve ser descartada a pergunta: “Por que Deus a permitiu?” Na pandemia, diz o documento, o homem experimenta a sua própria “fragilidade”, mas nunca fala da experiência humana com o pecado.

Segundo a Academia Pontifícia, apenas forças humanas estão em jogo na pandemia. Pede-se conversão, mas não a Deus, e sim ao meio ambiente e a uma solidariedade mais ampla. Jamais se pede para rezar, pois Deus só pode agir contra a pandemia através do homem. Como a pandemia é só um produto humano, resultado de desordens nas relações do homem com a natureza, o documento pede a conversão a novas formas de comportamento humano. Deus permanece fora dela; ou, então, insere-se dentro dessa dimensão humana e coincide plenamente com ela. Nos dois casos, este documento está privado da presença de Deus. Eis o motivo “teológico” de documentos desse gênero: falar de Deus significa falar do homem.

Quem assume como perspectiva o homem, e não Deus, acaba assimilando as ideologias mais difundidas por aí. É muito difícil explicar como o covid-19 nasce da “depredação da terra”, mas o documento o faz, cedendo à ideologia ambientalista. É preciso muito esforço para dizer que a epidemia pôs em evidência os benefícios da globalização (“O vírus não conhece limites, mas os países fecharam suas fronteiras”), mas o documento sustenta essa ideia, de acordo com a ideologia globalista e anti-soberanista. Destacar a importância fundamental de buscar-se uma vacina, e distribuí-la a todos sem discriminação, exige que a vacina não seja um instrumento de uma ideologia do poder globalista e dos interesses políticos, econômicos e sanitários globais, mas a Academia faz isso três vezes.

É preciso coragem para não considerar o real perigo que a pandemia significou para a vida dos nascituros, dado o aumento do compromisso dos Estados de garantir, em qualquer caso de gravidez indesejada, até o aborto a domicílio, superando as dificuldades restritivas do covid-19 , mas o documento da Academia para a vida nunca fala da vida no sentido em que deveria falar uma Academia Pontifícia para a Vida, ou seja, na linha da carta encíclica Evangelium vitae [de João Paulo II]. Causa muita perplexidade apostar tanto na Organização Mundial da Saúde (OMS), em vista da gestão política, ideológica e muitas vezes não científica desse órgão, mas o documento o faz, considerando-a “profundamente enraizada em sua missão de orientar o trabalho sanitário em todo o mundo”.

Não há dúvida: é um documento que agradará a muitos personagens de relevo no cenário globalista. Mas que desagradará — admitindo-se que o leiam e o compreendam — a todos os que prefeririam que a Pontifícia Academia para a Vida fosse realmente uma Pontifícia Academia para a Vida.

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