dante

Na literatura, os homens falam das coisas do mundo a partir do ponto de vista dos homens. Nas melhores obras, há uma sofisticação psicológica muito grande na criação e abordagem dos personagens. Nós, leitores, nos sentimos verdadeiramente transportados para uma faixa da realidade antes desconhecida, pois o bom escritor tem o poder de apresentar o mundo de uma forma diferente daquela que vemos a partir da nossa limitada experiência pessoal. A literatura é um primeiro exercício de transcendência: somos elevados a um ponto mais alto, além do que normalmente pisam os nossos pés.

Mas, geralmente, a transcendência para por aí. São raros, atualmente, os escritores que avançam em busca de transcendências ainda mais elevadas, como fez, por exemplo, Dante, em cuja Divina comédia os dramas e problemas humanos são enquadrados numa dimensão sobrenatural. Os escritores contemporâneos não conseguem mais rasgar a capa sutil que envolve o mundo e enxergar para além da esfera da percepção imediata. Prisioneiros do tempo, fecharam todas as janelas da cadeia que, antes, se abriam para a eternidade. Ficaram “inteligentes” demais no varejo da pequena feira e não conseguem avançar além, para o grande mercado atacadista que envolve céus e terra, transitoriedade e permanência, morte e ressurreição da carne.

Basta ver como grandes psicólogos da narrativa literária, como Henry James ou Proust, mobilizam ferramentas sofisticadíssimas de análise do comportamento humano, revelando-nos maravilhosamente aspectos antes insuspeitados do agir e reagir das pessoas; mas, misteriosamente, param por aí! Entristece perceber como toda essa maquinaria analítica se resigna à experiência natural. Estão hermeticamente fechados ao desafio sobrenatural. Seu potente microscópio está sempre de cabeça baixa, voltado para o mundo inferior e terreno, ao contrário do aparelho analítico de Dante, que alternava habilmente as funções de microscópio e telescópio, ora atento ao mundo natural, ora ao sobrenatural. A literatura moderna ficou inteligentíssima no particular e burríssima no geral.

Os abismos, os labirintos, as complexidades da vida se exprimem melhor nos dramas, nos poemas, nos contos e nos romances. Mas o mundo parece não querer mais o ponto de vista da literatura. Quem perde, evidentemente, é o mundo.