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Um bom livro é alimento sem prazo de validade. Olhamos as prateleiras cheias dessa estranha ração, que acumulamos durante a vida, já sabendo, evidentemente, que não vamos dar conta de ler tudo. Nem é preciso. Era outra a intenção, quando decidimos formar uma biblioteca: ninguém junta livros só para ler, mas para poder ler… Enquanto isso, estaremos cercados por sua sábia e muda companhia, que pode se transformar, de súbito, no mais inesperado mestre. Basta um gesto em direção às estantes.

Não só as bibliotecas são maiores que a nossa capacidade física de ler. A vida é curta demais para um único clássico da literatura, pois o leitor está espiritualmente sempre em movimento; a rigor, nunca se acaba de ler, pois a cada releitura descobrem-se surpreendentes novidades entre o primeiro e o último capítulo.

No século XIX, o livro era o ópio do ocidente. Anos felizes eram aqueles, que os historiadores chamam de “época do equilíbrio europeu”, e que deu a melhor literatura de todos os tempos. Agora, na época do desequilíbrio planetário, caótica e rebarbarizada, o livro é um mero sonífero sem contraindicações, um ansiolítico encadernado. Quanto mais belo o livro por fora, maior sua eficácia sonoterapêutica.

Paradoxalmente, temos a pior literatura de todas as épocas. Os formadores de opinião são agora de esquerda, como um dia já estiveram mais à direita. Quando o vento ajuda, criam a opinião pública que querem. Hoje, o ideal de leitor que sai dessa linha de produção é o politicamente correto, e as editoras — não, certamente, por escrúpulos ideológicos — usarão desse critério na escolha dos originais (exceto se o escritor politicamente incorreto, cada vez mais raro, já possuir o seu pequeno público cativo).

Formar opiniões, no entanto, é o que a literatura menos deseja, preferindo antes abalar convicções apressadas e preparar o terreno da alma para ideias menos comprometidas com o aqui-agora. Quando a literatura fica “correta”, está certamente em agonia, mesmo quando agrada às massas. Todo elogio sem restrição é sempre um pouco suspeito. Sabia das coisas aquele orador grego que, sempre que o aplaudiam, perguntava: “Onde errei?”

Preferimos, infelizmente, os números. A maior utilidade dos best-sellers, dizem os otimistas, é movimentar o mercado livreiro, que ficará mais à vontade para investir em obras menos rentáveis. Não é verdade. Sabemos que o lucro é para investir em outros virtuais best-sellers, que movimentarão ainda mais o dito mercado, e assim por diante, numa espiral de crescimento que tem como início e fim o próprio dinheiro. É a lógica do consumo e do mercado, para quem tempo será sempre dinheiro.

Livros culturalmente relevantes continuam a ser escritos, editados, vendidos e até lidos, mas são cada vez mais raros os leitores que conseguem interpretá-los com certos critérios que, antigamente, eram sagrados: a relação da obra com o ambiente e a época em que foi concebida e realizada, seus vínculos com a civilização que a tornou possível, sua possibilidade de fecundar o presente do leitor (se foi escrita em uma outra época) ou descortinar aspectos insuspeitos do passado (se for obra contemporânea).

Para leitores sem um mínimo de destreza literária, a autora do Harry Potter pode ser melhor que Shakespeare ou Dante Alighieri. Basta haver empatia com J. K. Rowling, uma identificação pessoal com essa escritora inglesa da moda, para que um juízo dessa natureza seja expresso. O gosto é o critério supremo de nossa época hedonista e preguiçosa, e ninguém tem o direito de discutir os gostos alheios, sob pena de ser punido por proferir “discurso de ódio”.