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Comecemos por precisar o termo. Já vi pessoas esclarecidas que consideram gnóstico um conceito unívoco quando, de fato, é equívoco, e a confusão traz sérios problemas, como inimizades e preconceitos.

Como sabemos, gnóstico significa “aquele que conhece” ou “conhecedor” e, em uma primeira acepção, tem um significado profundamente cristão. O catecismo nos manda “conhecer, amar e servir a Deus”; isto é, que sejamos “conhecedores” ou gnósticos. E o Novo Testamento está cheio de mandatos sobre a necessidade de “conhecer” a Deus: “Esta é a vida eterna: que te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro” (João 17, 3); recebam “um Espírito de sabedoria que vos revele o conhecimento dele” (Efésios 1,17-18); “Graça e paz em abundância para Vós, através do conhecimento de Deus…” (2 Pedro 1, 2), e assim poderíamos continuar com muitas mais citações. Obviamente, o conhecimento referido não é uma coleção de conhecimentos teóricos. Conhecer a Deus e a Cristo significa viver sob a convicção de sua presença, uma presença que é invisível aos olhos do corpo, mas que transforma a alma, tornando-nos semelhantes a Ele. Em suma, o conhecedor ou o gnóstico é a pessoa progredida na vida espiritual. Os Padres do Deserto chamavam de gnóstico o mestre espiritual, aquele que podia ensinar aos outros os caminhos da santidade. E nesse sentido, com toda a propriedade, poderíamos chamar de gnósticos, ou conhecedores de Deus, grandes mestres como Santa Teresa, São João da Cruz ou Santa Teresinha, para citar apenas alguns.

É verdade, no entanto, que a palavra é usada com mais frequência em um sentido completamente diferente: o gnóstico designa o membro de uma grande e difundida religião da antiguidade tardia, extremamente perigosa, e cujas águas residuais, camufladas de várias maneiras, ainda nos atingem hoje em dia: o gnosticismo. Parasita do cristianismo, ele mereceu a refutação e rejeição de grandes Padres e Doutores, como Santo Irineu com Adversus haereses (Contra heresias). Uma das ideias subjacentes a essa heresia é a de um conhecimento que é propriedade de alguns poucos, e, por causa disto, se colocam em um estágio superior em relação aos outros homens que permanecem em uma relativa ignorância, incapazes de alcançar os cumes desses segredos transmitidos apenas ao grupo de iniciados e eleitos. Muito poderia ser dito sobre a doutrina do gnosticismo, intrincada e cheia de mitos insustentáveis. E, embora tenha desaparecido como igreja identificável, sua presença permanece de várias maneiras, como, por exemplo, na maçonaria, que consiste em um grupo de homens iniciados, conhecedores de certos rituais e segredos, com a missão de governar aqueles que não têm acesso a esse conhecimento.

Em nossos dias, a presença de gnósticos renovados pode ser encontrada em todas as áreas. O modernismo era, em muitos aspectos, uma heresia gnóstica: aqueles que o apoiavam eram um grupo de acadêmicos iluminados que haviam descoberto, por exemplo, a verdade histórica dos Evangelhos, deixando a verdade “mítica” da fé para os não iniciados. O modernismo não ocorreu entre os fiéis — tomando esse termo no sentido que lhe dava o Cardeal Newman, isto é, abrangendo os leigos e o baixo clero — mas em uma elite de estudiosos. E essa característica, com várias nuances, continuou a dar-se entre os progressistas posteriores. Todos nos lembramos como, em 2014, o cardeal Kasper sugeriu que a Igreja não deveria ouvir os fiéis africanos, pois eles ainda são cheios de tabus, entre os quais o da homossexualidade. O conhecimento maduro e válido é encontrado em um grupo de católicos eleitos e ilustrados, geralmente da raça germânica.

Outro exemplo (embora tenhamos de diminuir, significativamente, a qualidade do personagem) deu-o o porta-voz do bispado de San Rafael (Argentina), padre José Antonio Álvarez, ao dizer à imprensa que “não há diferença entre dar a comunhão na boca ou na mão. Existem apenas motivações simbólicas”. Tudo acaba sendo um símbolo que é corretamente interpretado por ele e por um grupo de esclarecidos; aqueles que não consideram a comunhão um símbolo qualquer, mas uma questão com uma entidade e importância superior, são reduzidos à categoria de primitivos ignorantes, que não alcançaram o conhecimento dos sábios e merecem, inclusive, ser entregues às autoridades civis (literaliter).

A pandemia, por outro lado, fez com que o mundo inteiro fosse governado por um grupo de gnósticos que assessoram, sob o rótulo de epidemiologistas, todos os governos da terra. Já falamos neste blog sobre os cientistas esclarecidos do Imperial College e o gênio do Vale do Silício que previram, para este ano, dez milhões de mortes. Como novos alquimistas, manejam fórmulas matemáticas e misteriosas equações, das quais brotam esses números intimidadores e mentirosos, que decidem a vida e a liberdade de milhões de pessoas. Como já foi dito, a crise do coronavírus mostrou como é fácil cair nas mãos das elites científicas hegemônicas.

Em sua coluna desta semana, em La Nación, Mario Vargas Llosa nos ensina por que Trump deve ser derrotado na próxima eleição: “Por sua ignorância e arbitrariedade, Trump conseguiu fazer seu país se distanciar de seus aliados tradicionais e se aproximar de seus inimigos, sem nem mesmo perceber que estava fazendo isto.” Trump, pelo visto, não é do grupo dos gnósticos, nem Putin, nem Duda, nem Orban. São ignorantes; nada sabem e, portanto, devem ser afastados do governo, que deve pertencer exclusivamente ao grupo dos iluminados que levarão o mundo a um bom destino.

E, para finalizar, na última terça-feira Bari Weiss, editora do New York Times, renunciou ao cargo e publicou uma longa carta com suas razões. Este jornal é provavelmente o mais influente do mundo e notável por sua linha progressista. Weiss, por sua vez, não é uma carmelita descalça… No entanto, como ela mesma explica, acabou sendo impossível para ela aceitar o clima de censura e, sobretudo, de autocensura que se vive na redação desse jornal, a respeito de qualquer opinião que possa contradizer a ditadura do progressismo. Afirma ela: “Um novo consenso surgiu na imprensa, especialmente neste jornal: a verdade não é um processo de descoberta coletiva, mas uma ortodoxia já conhecida por alguns poucos iluminados, cujo trabalho é informá-la a todos os demais”. O que essa fonte inquestionável explica é que a informação e a formação de opinião em todo o mundo — excluindo, por enquanto, as redes sociais — decorre das decisões de um pequeno grupo de clarividentes — os gnósticos — que são os que estabelecem o que é verdadeiro e o que é real.

O problema é que não temos um novo Santo Irineu para combater esse neognosticismo; mas, mesmo se o tivéssemos, temo que não seria suficiente escrever um tratado teológico. Creio que está chegando a hora de recorrer a armas mais contundentes. Não penso, obviamente, em lanças ou munições. Refiro-me, simplesmente, a procurar sair do alcance do radar gnóstico. Acho que é a única coisa que podemos fazer neste momento.

http://caminante-wanderer.blogspot.com/2020/07/el-retorno-de-los-gnosticos.html