JEAN-LOUIS HAROUEL

JEAN-LOUIS HAROUEL

[Jean-Louis Harouel é professor de Direito na Universidade de Paris II. Também crítico de arte e da cultura, publicou em 2017 o livro Droite-gauche: ce n’est pas fini (Ainda existe direita e esquerda)].

A divisão direita-esquerda não está superada, pelo simples fato de que não é superável. O antagonismo entre esquerda e direita é inevitável, pois é resultado do antagonismo de suas respectivas raízes.

De fato, as raízes mentais da esquerda se referem às grandes heresias falsificadoras do cristianismo, em particular a gnose e o milenarismo: a gnose com seu orgulhoso projeto do homem que quer ser Deus, o milenarismo com sua promessa, aqui para a terra, de um paraíso igualitário produzido pela revolução. Duas heresias que, quando se secularizaram, deram origem ao dogma progressista, com suas duas utopias constitutivas: a “utopia social”, igualitária e coletivista; a “utopia societal”, baseada no processo individualista da afirmação absoluta de si mesmo.

A isto se opõem as raízes mentais da direita: nos países forjados por um milênio e meio de cristandade, é o próprio cristianismo que está na origem das atitudes da direita. Com a consequência de que a direita pode ser definida como uma anti-utopia, a exemplo do próprio cristianismo.

Em relação à esquerda, o principal obstáculo à sua unificação vem do fato de que existem duas esquerdas, respectivamente originárias do milenarismo e da gnose: a “esquerda social” (coletivista) e a “esquerda societal” (individualista), obedientes a utopias que podem se justapor ocasionalmente, mas cada uma com sua própria lógica.

Dominante no século passado, a utopia da “esquerda social” promete a construção de sociedades perfeitamente igualitárias por meio da coletivização dos meios de produção, a supressão da propriedade privada. Essa ideologia foi plenamente realizada nos regimes comunistas, mas também inspirou, nos países da Europa Ocidental, um socialismo que assumiu a forma atenuada da social-democracia.

Mais recente, no entanto, é a “utopia societal”, que almeja alcançar a igualdade combatendo ferozmente o que chama de “discriminações”, dando livre curso a toda a gama de reivindicações e caprichos individuais. Hoje, grande parte da esquerda renunciou à “revolução social” e a substituiu pela “revolução societal”. Atualmente, a esquerda parece ter encontrado sua marca registrada no reconhecimento das mais variadas opções sexuais, na apologia do aborto, na legalização das drogas, na sacralização da imigração ilegal, na recusa de fronteiras, no culto à minorias etc. Tudo isso é parte integrante de um liberalismo progressista no qual os últimos defensores da “utopia social” não se podem mais reconhecer.

O liberalismo de direita também é um problema, mas não insolúvel. De fato, existe um liberalismo de direita, preocupado com as questões da cidade, da nação, da família, que preserva os valores do Decálogo, insistindo na responsabilidade do indivíduo pelas consequências de suas ações. Um dos grandes representantes do liberalismo de direita foi Wilhelm Röpke que, ao afirmar “a superioridade fundamental da ordem espontânea sobre a ordem dirigida”, desenvolveu um pensamento caracterizado por um conservadorismo ético-religioso. Esse membro fundador da Sociedade Mont Pèlerin, que ele presidiu em 1961-1962, pretendia restabelecer o liberalismo retornando aos valores morais tradicionais.

Na França, Macron finge ser as duas coisas ao mesmo tempo. Mas, na realidade, representa o liberalismo progressista triunfante, que hoje é a face principal da esquerda (e que, embora a longo prazo acabe condenando as sociedades ocidentais à autodestruição, vai muito bem a curto prazo com seus interesses comerciais).

Esta é a ideologia daquela parte da classe burguesa que foi conquistada pelo progressismo “societal”, pelo dogma imigracionista, pela ideia da obsolescência das soberanias nacionais, e que por isso pertence, conscientemente ou não, à esquerda. Encontrando-se em sintonia com uma mídia quase inteiramente de esquerda, cujos jornalistas são recrutados de suas fileiras, essa burguesia progressista se considera a elite iluminada que controla, do alto de sua superioridade, tanto o espírito rude e inculto das classes populares, como o conservadorismo da burguesia tradicional. Sendo, sob muitos aspectos, reflexo e porta-voz dessa burguesia progressista, Emmanuel Macron é um presidente de esquerda: da esquerda “societal”, que pouco se importa com o “social”.

https://amp.lefigaro.fr/vox/politique/jean-louis-harouel-le-clivage-droite-gauche-n-a-jamais-disparu-20200720?__twitter_impression=true