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Não são poucos os que associam o cristianismo ao comunismo. Parece, no entanto, mais acertado afirmar que o cristianismo é a base da “heresia” comunista, que dele roubou o espírito comunitário e a preocupação com os pobres, inserindo-os numa doutrina anticristã, materialista e fratricida.

Um dos dogmas centrais da Igreja Católica é o da “comunhão dos santos”, que o fiel reafirma em todas as Missas dominicais quando diz o Credo, e que significa, entre outras coisas, a crença na possibilidade de todas as almas intercederem umas pelas outras, tanto as que ainda estão neste mundo, presas aos corpos, como as já salvas no Purgatório e no Paraíso.

Uma passagem da vida do padre Pio ilustra bem o mistério desse dogma. Encontra-se no livro do jornalista irlandês John McCaffery, Padre Pio, histórias e memórias (Loyola, 2011, 7ª edição, p. 46).

Doutor Sanguinetti, grande amigo do frade franciscano, certa vez o encontrou em sua cela rezando pelo próprio avô, morto há muito tempo. “Mas o senhor não me disse que ele já estava no Céu?”, perguntou a Padre Pio. Este sabia que o tempo dos homens e a eternidade de Deus são realidades distintas. “Sim, está”, respondeu-lhe o padre, “mas as orações que digo por ele agora, e aquelas que direi no futuro, ajudaram-no a chegar no Céu.”

Padre Pio já sabia que seu avô estava no Céu, por um desses privilégios que Deus concede aos grandes santos e místicos. Se a experiência nos mostra que a estrutura do tempo é consecutiva — o passado, o presente e o futuro ocorrem um depois do outro —, para Deus as três faixas do tempo são simultâneas. Por isso, padre Pio podia rezar pelo avô que já estava no Céu, enquanto Deus, Senhor do tempo e do espaço, deslocava a súplica para “antes”, para quando o avô ainda necessitava de preces. Essa mesma concepção “divinizada” do tempo, sempre em relação com a eternidade, era a que possibilitava ao padre Pio rezar pelo Cristo ainda solitário e em agonia no Horto da Oliveiras, há dois mil anos, numa simultaneidade estonteante que só os homens de muita fé conseguem experimentar.

Como isso é possível? É inútil pretender explicar racionalmente esses mistérios. Basta saber que, para Deus, tudo é possível. É fascinante, contudo, essa interpretação que a Igreja oferece da “comunhão dos santos”, ao abrir uma possibilidade imensa de mútua intercessão entre vivos e mortos. O ser humano pode e deve pedir por todos os seres humanos. E por que não, seguindo a lógica do padre Pio, pedir por mortos cuja salvação pareça impossível?

Atualmente, são muitos os católicos que acreditam mais na eficácia da ação política que no poder da oração. Há forte tendência, hoje, de pensar que só a pobreza material é objeto digno da misericórdia humana, como se a vida terminasse com a morte, quando a principal pobreza dos tempos modernos é a espiritual, responsável pelo caos em que se transformou o mundo. O dogma da “comunhão dos santos”, ao contrário, aponta para um horizonte muito maior, de todos ajudando a todos no que mais importa, neste e no outro mundo. É o verdadeiro comunismo, não restrito às coisas materiais, antes submetendo-as a uma ordem superior: a realidade sobrenatural.

Padre Pio fez as duas coisas. O provavelmente maior santo do século XX sabia conciliar as duas dimensões, colocando a espiritual sempre acima da temporal: enquanto curava as almas ou intermediava milagres espantosos nos corpos das pessoas, construiu um grande hospital em São Giovanni Rotondo, cidade em que viveu a maior parte de sua vida, destinado principalmente aos pobres.