tolkien

Prudente de Moraes, neto, que foi sem dúvida um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX sempre exprimiu a desconfiança de que o romance e o poema seriam superados por outras artes, das quais participariam só indiretamente, como o cinema e a canção popular.

A primeira vez em que arriscou o prognóstico da “morte da literatura” foi em conversa com o jornalista Homero Senna, em 1945, publicada no diário carioca O Jornal: “Como turfista, sei que, quando se avança uma opinião, uma das grandes probabilidades é errar… Mas que mal há em errar? O turfe nos familiariza com o erro”.

A ideia era esta: o cinema tomaria conta do espaço até então ocupado pelo romance, que já estaria na fase da “sobrevivência”. Continua existindo devido a seu aspecto artesanal, já que os meios técnicos para a realização de um romance estão ao alcance de qualquer um, ao contrário do aparato industrial e milionário do cinema.

O contador de histórias, dizia Prudente, “para satisfazer a determinadas necessidades intelectuais, emotivas e de compreensão da vida em seus valores eternos”, utilizou o veículo romance numa época em que, do ponto de vista dos meios técnicos, não era possível contar histórias de outra maneira. Gerado por uma invenção técnica — a impressora — mas ferido de morte por outra — a filmadora —, o romance inicia-se com a máquina de Gutemberg e começa a desaparecer com outra máquina, a dos irmãos Lumière.

O cinema venceria, acreditava Prudente, em mais uma vitória da técnica, como já tinha acontecido com o próprio romance em relação à epopeia, por ocasião da invenção da imprensa. A recriação da vida, nesse mundo possível da ficção, não era privilégio do romance. Antes dele, o conto, a epopeia e o teatro já tinham abarrotado o celeiro do espírito com esse estranho alimento, a fantasia, sem o qual não vivem os homens e as mulheres. Todos esses veículos surgiram em conexão estreita com as virtualidades técnicas de cada época e cada meio social.

Com o desenvolvimento da tecnologia, porém, surgiu esse meio mais objetivo e dinâmico de narrativa — o cinema —, que aproveita elementos do romance e do teatro numa síntese mais convincente. A “função fabuladora”, para lembrar a expressão de Bergson, mudou de veículo para continuar contando as histórias de que tanto necessitamos.

A assimilação de processos cinematográficos, pelo romance moderno, talvez fosse uma manobra desesperada dos escritores para conseguir uma sobrevida maior, como guerreiro aprisionado que se submete à condição de escravo.

O contrário, porém, também ocorreu: a assimilação de processos e técnicas literárias pelo cinema: “Todo progresso que se vem notando na arte do cinema é no sentido de permitir que este se apodere dos meios de expressão do romance. Aliás, quase todas as conquistas do romance pós-naturalista já foram aproveitadas pelo cinema: a técnica contrapontística, a análise dos pensamentos, mesmo inconscientes, dos personagens etc.”

O destino dos gêneros literários, na visão de Prudente, dependeria mais de condições técnicas e necessidades sociais do que da exclusiva intenção e vontade dos escritores.

Outro fator destacado por Prudente era a influência do público na escolha dos meios narrativos: “Como é uma necessidade do mesmo gênero da que nós experimentamos como leitores que leva o romancista a escolher o romance como meio de expressão, é de prever que no futuro ele próprio se sentirá menos solicitado nesse sentido, e teremos, portanto, menor número de romancistas”.

É provável que o meio antigo, segundo Prudente,  não desaparecesse de todo, mas ficaria reduzido a uma minoria de autores, que insistiriam, diletantemente, numa forma mais intelectualizada e artística de contar histórias; o romance mais popular, porém, fundado sobretudo no enredo e na surpresa, era um produto condenado a perecer, com prazo de validade já perto do final.

Parece que Prudente acertou quanto à literatura mais séria, mas se equivocou em relação ao romance popular. Os filmes de Hollywood não impediram a profusão da ficção-científica. Ou do romance fantástico: basta pensar-se num J. R. R. Tolkien (que consegue conciliar apelo popular com sofisticação literária) ou numa J. K. Rowling.