genuflexão na formula-1

Está na moda ajoelhar-se, mas não na igreja. Ajoelham-se membros do parlamento, pilotos de Fórmula 1, atletas nos estádios, mas em várias igrejas é proibido ajoelhar-se. Na catedral da pequena cidade onde eu moro, as instruções da Pastoral para as celebrações durante o coronavírus proíbem que se ajoelhe durante toda a Missa, inclusive na Consagração, para que não se diminua a distância entre as pessoas. Por isso, normalmente, ajoelho-me no chão,  mas no domingo passado me ajoelhei no banco, pois não havia ninguém à minha frente e portanto não havia distâncias para diminuir… Um responsável pela organização da assembleia, vestindo um colete azul com o brasão da pastoral, veio até mim imediatamente para avisar que eu não podia me ajoelhar.

A Igreja, assim, impede que seus filhos se ajoelhem diante de Deus. O motivo imediato é o Covid-19. No entanto, se a proibição se aplica mesmo quando não haja por perto ninguém para ser contaminado, significa que não se trata só do Covid-19. De fato, faz tempo que a maioria dos fiéis não se ajoelha nas igrejas, nem os sacerdotes os convidam a fazê-lo (em muitas igrejas, já nem há mais genuflexórios junto dos bancos). Com o Covid-19, proíbe-se diretamente a prática, embora há muito tempo não seja mais apreciada pelos católicos.

O motivo teológico, em que frequentemente isto se baseia, é que o Cristo já nos redimiu, e a posição ereta revelaria melhor a consciência da nova vida de redimidos. Pela mesma razão, somos forçados a receber a Comunhão não de joelhos, mas precisamente de pé. Dessa maneira, porém, se confunde redenção e justificação. Cristo nos redimiu, sim; mas se Ele nos justificou, só o saberemos após “nossa morte corporal”.

O curioso é que agora, enquanto a Igreja proíbe a genuflexão, o mundo nos convida a fazê-la. No domingo passado, 5 de julho, antes do início do Grande Prêmio da Áustria, alguns pilotos — nem todos, já que Leclerc disse ser contra o racismo, mas não se ajoelharia — curvaram-se de joelhos na pista, em homenagem à luta contra o racismo dos Black Lives Matter. Em 9 de junho passado, a deputada italiana Laura Boldrini e alguns colegas do Partido Democrático se ajoelharam na câmara em homenagem a George Floyd, o americano negro morto pela polícia de Minneapolis. Não se contam os campeões do esporte e do mundo do espetáculo que se ajoelham, assim como tantos manifestantes nas praças da Itália. Essa atitude ideológica — e é ideológica porque é dirigida apenas a certos racismos e assume um comportamento niilista destrutivo — tornou-se uma prática politicamente correta.

O gesto de ajoelhar-se possui um significado religioso. Nos ajoelhamos diante de algo Grande, algo que tem um Valor superior a nós, algo cujo Poder merece veneração. Há uma genuflexão do crente, mas também uma genuflexão do laicista e até do ateu.

É preciso, contudo, cuidar sempre para que não se ajoelhe diante de ídolos. A religiosidade natural, se praticada com coerência, deságua na genuflexão diante do Deus verdadeiro; mas, se desviada de seus princípios, aquele que a pratica corre o risco de se ajoelhar diante de ídolos. A verdadeira religião liberta-nos dos mitos, dos ídolos consoladores, das ideologias religiosas auto-complacentes. Ajoelhar-se diante do Deus verdadeiro comporta não se ajoelhar diante de nenhum ídolo. O próprio crente corre esse risco, embora o laicista e o ateu corram mais. Bento XVI nos disse que quem rejeita a Deus acaba acreditando em deuses, isto é, em ídolos. O mundo, que rejeita a religião verdadeira, orgulha-se de já não ser mais crente, embora não perceba que se tornou crédulo. Para viver, ele é porém forçado a se ajoelhar diante de muitos ídolos que, na maioria dos casos, são propostos e impostos por alguém que tenha interesse em fazê-lo. Cada ídolo é um instrumento nas mãos de alguém; e ajoelhar-se diante do Black Lives Matter também já se tornou algo instrumental.

A Igreja, agora, proíbe a genuflexão, enquanto o mundo convida-nos a fazê-la. Será que a Igreja já se transformou em mundo e o mundo numa religião? É possível que sim. Mas ainda há os que se ajoelham nas igrejas, apesar das normas anti-Covid-19, e aqueles que não se ajoelham nos estádios ou em outros lugares parecidos. Quando o conformismo ideológico toma conta da Igreja e do mundo, “atravessar a floresta” — metáfora da superação dos obstáculos usada pelo escritor alemão Ernst Jünger — significa fazer o contrário do que se espera; não necessariamente coisas extravagantes, mas fazer o certo, fazer aquilo que deve ser feito.

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