universidade americana

Para melhor compreender o que se passa hoje na universidade — e, por consequência, em toda a vida social —, é necessário partir da divisão do mundo acadêmico em duas grandes áreas: de um lado, as humanidades; de outro, os cursos técnicos e as ciências exatas.

Feito isto, digamos que a segunda grande área continua cumprindo seu papel, mais ou menos de acordo com as expectativas da sociedade e do mercado, formando engenheiros, médicos, dentistas, farmacêuticos, biólogos, químicos, administradores de empresas etc.

Quanto à outra grande área, as humanidades (que abrange filosofia, ciências humanas, artes), já não parece mais disposta a seguir o caminho que, até há algumas décadas, era tradicionalmente o seu: servir de elo entre a herança cultural do passado e os desafios impostos pelo presente.

Era o que a sociedade, em geral, dela esperava. No entanto, ao contrário do esperado, as humanidades passaram a servir aos interesses de um grupo muito pequeno da sociedade, embora politicamente muito ativo: os chamados intelectuais progressistas, cuja ideia fixa, nos últimos dois séculos, tem sido a transformação radical do mundo; alguns com mais pressa, outros menos apressados, mas coincidentes todos no propósito de mudar de forma decisiva a realidade social, como se os que viveram antes de nós fossem todos uns idiotas.

Os intelectuais progressistas — que, politicamente, vão desde o liberalismo não conservador até o extremo-esquerdismo — sabem que a parte pensante da universidade são as ciências humanas e as artes, e é através delas, transformadas em meras ferramentas, que se podem mudar os hábitos, costumes e princípios morais de uma sociedade.

Ora, quando a parte pensante de um grupo social se degrada em instrumento manuseável, é porque já abdicou de… pensar. De fato, tal “parte pensante” limita-se, hoje, a monitorar atividades previamente escolhidas e definidas pelos intelectuais mandachuvas. O resultado é que o conteúdo ensinado aos alunos, no setor das humanidades, estará sempre orientado a um fim político exclusivo, derivado de um pensamento único.

O chamado “mundo acadêmico” parece reduzido a ser uma usina produtora de conceitos operacionais a serviço de um determinado projeto político (não é outra a definição de ideologia). Ali estão as linhas de montagem do Homem Novo, livre das correntes morais e espirituais com as quais o cristianismo teria aprisionado a humanidade por dois mil anos…

Cada faculdade procura, hoje, dar o seu contributo à criação dessa nova humanidade “liberada”, que já não presta mais reverência e adoração ao Deus que se fez homem, mas ao homem disposto a se tornar, ele mesmo, um deus. A expressão mais caricata desse propósito, descendente do Iluminismo do século XVIII, é o atual trans-humanismo, que acredita ser possível “salvar” o ser humano pela tecnologia.

Nas mãos dos intelectuais progressistas — e dos professores que dizem sim a tudo o que eles ordenam —, a psicologia, a sociologia, a História, o direito, a filosofia, a literatura e as artes sempre estarão a serviço da “produção” de militantes sexualmente desreprimidos, livres para escolher o próprio sexo, bem adestrados para os mais variados conflitos sociais; agentes críticos e contestadores, com mais direitos que deveres, crentes na mutabilidade dialética de tudo e de todos. É dessas pessoas que se compõem movimentos como o atual Black Lives Matter, que facilmente descambam para o terrorismo.

São os professores universitários, discípulos dos intelectuais progressistas, que na área das ciências humanas orientam pesquisas, compõem bancas de teses e concursos de seleção de professores, chefiam departamentos, dirigem campus, são eleitos reitores. O horizonte cognitivo de nossos filhos, netos e bisnetos está nas mãos desses monitores a serviço dos iluminados intelectuais pós-cristãos.

Tal fato é o maior e mais escandaloso assalto de nossa época: uma minoria de intelectuais, numericamente insignificante, possuir tanto poder sobre uma faixa tão grande da população, por intermédio do controle daquilo que eles mesmo chamam de “produção do conhecimento”, que sai dos campus universitários e chega às mais variadas escolas do país, das zonas nobres das cidades à periferia mais abandonada.