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Quem é o principal romancista conservador hoje? Um nome que vem à mente é Michel Houellebecq, recentemente incluído pelo colunista do New York Times, Ross Douthat, no currículo de suas aulas sobre conservadorismo na Universidade de Yale. E enquanto os livros de Houellebecq oferecem ideias interessantes sobre metafísica, o Islã na Europa e como o mercado afeta nossa vida amorosa — se a direita permitir, em seu cânon, romances niilistas de depravação sexual, penso que há um autor mais poderoso que ele por aí.

Trata-se de Cormac McCarthy, o maior romancista vivo. É realmente estranho que ele e Houellebecq não sejam comparados com mais frequência, pois ambos escrevem a partir de uma visão de mundo semelhante, sobre tópicos semelhantes. Não são propriamente conservadores, mas ambos representam bem o “pessimismo cultural” da direita. E apenas compreendendo por que McCarthy é o nosso melhor escritor, podemos perceber a maneira correta como essa fatia de conservadorismo deve ser integrada ao cânone maior.

O interesse conservador em Houellebecq deriva de suas críticas ao liberalismo europeu, particularmente suas ideias sobre isolamento social, a revolução sexual e o islã, que estão mais claramente expostas em seus romances As partículas elementares e Submissão. Houellebecq atribui o tédio cultural da Europa à metafísica empirista, que limita o conhecimento do mundo. Atribui a revolução sexual dos anos 60 e o recente abraço ao Islã na Europa como sintomas desta doença.

Em Partículas elementares, escarnece do “amor livre” dos hippies dos anos 60 e mostra como a revolução sexual representou a intrusão dos princípios de mercado nas relações humanas. Segundo Houellebecq, a hookup culture [cultura das ligações sexuais efêmeras] é um mercado competitivo de produtos que gera a mesma desigualdade presente no capitalismo global. Submissão revela como os chavões sentimentalistas sobre diversidade e Islã significam o apático encolher de ombros de um povo desenraizado da cultura autêntica. Embora ele tenha chamado o Islã de a religião mais estúpida do mundo, seu verdadeiro alvo é o enfraquecimento cultural do Ocidente. O pessimismo de Houellebecq tem tudo para atrair os conservadores preocupados com o futuro do Ocidente.

No entanto, acima e além dessas ideias, Houellebecq está interessado principalmente em Houellebecq. Um exame atento de suas escolhas como escritor revela os aspectos egocêntricos de sua imaginação, que minam sua visão do pessimismo cultural. Todos os seus protagonistas são versões dele mesmo; às vezes até compartilham o nome dele. Uma certa quantidade de autobiografia é permitida em romances, mas a auto-obsessão de Houellebecq invalida a forma e a estrutura de sua arte. Por exemplo, no quarto capítulo de As partículas elementares, a narrativa em terceira pessoa inexplicavelmente muda para a primeira pessoa numa única frase. Isso é escrita amadora. Houellebecq também gosta de se afastar da história para oferecer fluxos de detalhes sexualmente explícitos. Ocasionalmente, isso resulta em humor negro, mas, com mais frequência, parece só ter em mira chocar os mais pudicos.

Em As partículas elementares, essa escrita superficial é encoberta por uma estrutura narrativa projetada para atrair o leitor. O protagonista é um cientista que inventou algo que mudou a humanidade, embora não saibamos o que seja; não passa de um truque de suspense que vai arrastando o leitor pelas reflexões de Houellebecq. Mas isso é um artifício, não uma história. Se Houellebecq colocasse sua arte acima de seu ego, ele poderia se perguntar se não houve uma contradição ao usar a técnica narrativa dos entretenimentos produzidos em massa, a fim de atrair os leitores em suas críticas aos entretenimentos produzidos em massa. Essa falta de vigor artístico debilita sua representação da falta de vigor ocidental, e o pessimismo absoluto é desmentido pela óbvia alegria que Houellebecq experimenta em suas provocações.

Por outro lado, Cormac McCarthy parece genuinamente angustiado por seu pessimismo. McCarthy escreve sobre assassinos, escalpeladores, vagabundos com sacos cheios de morcegos, canibais. Esses pesadelos são acompanhados por perguntas dostoievskianas sobre a existência de Deus e a natureza do mal. Não é, em absoluto, uma coisa alegre. Como Houellebecq, McCarthy está interessado nos efeitos colaterais da revolução metafísica do Iluminismo, e também põe em dúvida o projeto liberal. Mas enquanto em Houellebecq essas ideias são inseparáveis do egoísmo, em McCarthy elas se inserem numa certa concepção artística. O principal interesse de McCarthy são os limites da linguagem, e seu compromisso de explorá-los acabam por forçá-lo a transcender a escuridão implacável presente em seus romances.

McCarthy escreveu um ensaio sobre as origens da linguagem, onde afirmou que nossa mente inconsciente é aquela parte de nossa consciência que não tem acesso à linguagem. Seus romances vinculam religião e esperança, de forma consistente, com aquilo que não pode ser colocado em palavras. Sua peça The Sunset Limited [a versão cinematográfica, no Brasil, se chamou No limite do suicídio] é sobre um ex-presidiário evangélico que tenta impedir um professor ateu de cometer suicídio. Quando o ex-presidiário falha, pergunta a Deus: “Se você queria que eu o ajudasse, por que não me deu então as palavras certas?” No final de Meridiano de sangue, o protagonista abandona a gangue maligna de escalpeladores e começa a carregar uma Bíblia, embora seja analfabeto. Esse fio condutor, atrás do pessimismo de McCarthy, desenha uma discreta esperança.

Como As partículas elementares, de Houellebecq, Filho de Deus de McCarthy explora temas como o isolamento das pessoas e a luta do indivíduo contra a comunidade. A história apresenta Lester Ballard como um “Filho de Deus muito parecido com você”. Ballard é expulso da fazenda da família, vive sozinho na floresta, cai na loucura e se torna um necrófilo que mata em série. A história examina maliciosamente o célebre mito liberal do indivíduo emancipado. McCarthy intercala a queda de Lester com monólogos de várias pessoas da cidade, que tentam encontrar explicações para o monstro. A justaposição é obscurecida pela introdução de McCarthy e, assim, nossa atenção é despertada para a insuficiência de explicações materialistas. Entre o que é dito e não dito, somos levados a questionar o papel da comunidade na criação de Lester. Desta maneira, McCarthy diagnosticou e examinou o assassino da cidade de Sandy Hook, o terrorista de Toronto e a época do isolamento em 1973. Apesar da desolação, Filho de Deus termina com Lester se entregando a um manicômio com as palavras “eu sou daqui.”

Depois de Filho de Deus, todos os romances de McCarthy terminam deixando sempre um espaço para a esperança. Suttree acompanha um vagabundo niilista em aventuras do tipo das narradas em Huckleberry Finn, mas acaba com o protagonista empreendendo um novo começo. Meridiano de sangue é a história esmagadoramente violenta de uma gangue de escalpeladores, mas termina com um impreciso alvorecer da civilização. Essa trajetória chegou à sua apoteose em A estrada, o romance com que McCarthy venceu o Prêmio Pulitzer, sobre um pai e seu filho numa terra devastada, pós-apocalíptica. Provavelmente, é o trabalho de McCarthy com o qual os conservadores estão mais familiarizados. Aqui, McCarthy dá rédeas soltas, inequivocamente, ao calor e à ternura que faltam na maior parte de seu trabalho anterior, além da esperança que uma geração pode passar à outra. Entre os trabalhos de Houellebecq e McCarthy, A estrada é o mais explicitamente conservador e o mais explicitamente esperançoso. Isso ocorre porque McCarthy perseguia uma visão, ao invés de um ego.

Nos textos de Houellebecq, o pessimismo quase permanente é sempre acompanhado de um bocejante egoísmo. Como diz o Satanás de Milton, a mente pode fazer do céu um inferno. Muitas vezes, o conservadorismo tresanda a um pessimismo autoindulgente. Repete-se, irrefletidamente, que os conservadores têm uma “visão trágica” do homem, mas isso é bem diferente de saborear uma tragédia. Graves previsões culturais são facilmente estetizáveis, e Houellebecq é essencialmente um romântico. Cormac McCarthy deve ser colocado nas listas de leitura da direita, porque seu vigor artístico exige um lugar para a esperança.

Gostaria de terminar sugerindo que, se Submissão de Houellebecq oferece a visão autoindulgente do inevitável fim do liberalismo europeu, a Trilogia da Fronteira, de McCarthy — sobre cowboys na fronteira do México, quando a tecnologia começa a suplantar a cultura dos fazendeiros — oferece uma enérgica refutação americana do mesmo fenômeno. Cormac McCarthy é importante para o cânone conservador, porque, em sua desolação, ele reafirma que uma concepção do mal exige uma concepção do bem, e uma visão trágica exige uma visão da alegria.

https://www.theamericanconservative.com/articles/cormac-mccarthys-conservative-pessimism/