raspail

A boa literatura católica faz falta. O esquecimento, nas últimas décadas, dos romancistas católicos, não parece muito difícil de compreender, dada a predominância, na universidade e na imprensa cultural, de profissionais que caminhavam em sentido contrário ao cristianismo. No entanto, as grandes antinomias do catolicismo literário — fé e dúvida, crime e castigo, justiça e misericórdia, inocência e pecado, carne e espírito, prazer e sacrifício, obediência e rebeldia, ódio e piedade, bem e mal, vício e virtude, caridade e egoísmo, esperança e desespero, perdição e santidade —, são fundamentais para a compreensão não só do romance e do teatro, como da própria poesia ocidental, desde a Idade Média. São temas que também aparecem, de um modo ou de outro, em escritores ateus ou agnósticos, mas, em sua secularização racionalista, tendem a perder a força dramática ou trágica (sobretudo nos ateus) que possuem nos romancistas cristãos.

Romancista católico foi o francês Jean Raspail, falecido com noventa e quatro anos neste mês, no dia 13 de junho. Em português, pelo menos duas de suas obras foram traduzidas: Quem Se Lembra dos Homens? (Editora Globo, 1989) e O campo dos santos (Ediouro, 2002)

Este último, publicado em 1973, é de extrema atualidade. Está traduzido nas principais línguas do mundo e conta a história da invasão migratória da França por oitocentos mil indianos, com suas consequências sociais, culturais e espirituais.

Escrito numa prosa tipicamente francesa, concisa e elegante, nele não falta também o humor corrosivo do intelectual apegado à tradição ocidental, que bem conhece o destino que aguarda a civilização a que pertence.

Além de pródigo romancista, Jean Raspail foi também um grande viajante. Desde os anos cinquenta tem percorrido as mais diversas regiões do planeta, e escrito sobre elas.

Sobre o papel da literatura no mundo de hoje, disse que o pouco que dela resta ainda desempenha um papel essencial: “Não será pela mídia que isso se realizará. A civilização francesa se transmitirá através da literatura. Nesse sentido, acredito na importância do romance. Estamos cheios de ensaios sobre tudo quanto é coisa; os políticos vivem urinando tinta. Penso que a forma romanesca é uma maneira menos didática e mais livre de abordar as coisas.”