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[O movimento atual, que tem por referência o Black Lives Matter, não é somente uma outra forma de racismo. É também a vontade de destruir estátuas apenas porque são estátuas, expressão de uma hierarquia de valores, de alguma ordem. E querem destruir as imagens de Jesus e de Nossa Senhora porque apontam para o Fundamento da ordem, que é Deus. É o que mostra o filósofo italiano Stefano Fontana neste artigo].

Nos Estados Unidos, os militantes do movimento Black Lives Matter (BLM) demolem as estátuas que expressam racismo e, dessa maneira, se mostram racistas. O racismo é geralmente condenado porque faz de uma causa partidária, como a cor da pele, uma regra geral para todos. Mas até os militantes de pele negra se tornam racistas, quando acusam os brancos de ser maus apenas por ser brancos.

Contrapor uma parte a outra é sempre jogar um jogo parcial, um jogo partidaresco. Hoje eu derrubo suas estátuas e amanhã você derruba as minhas… O jovem Shaun King, que deseja a destruição de estátuas, incluindo as de Jesus Cristo, se apresenta a si mesmo como uma estátua viva à espera de ser celebrada. Se o movimento BLM chegasse de alguma forma ao poder, erigiria suas próprias estátuas, entre as quais pelo menos uma a esse jovem. Quem agride estátuas, em estátua se transforma.

Isso explica por que o jogo dos partidos, ou o jogo das estátuas, sempre existiu. Cada novo regime destrói as estátuas do anterior. De vez em quando, na Itália, aparece alguém que gostaria de demolir os monumentos do período fascista. Em Trieste, não querem mais a estátua de D’Annunzio. Em Milão, irrita-os a de Montanelli. Em Chicago, pretende-se substituir a estátua de Italo Balbo.

O passado divide, porque no passado as pessoas estavam de um lado ou de outro. Mas, do mesmo modo que a democracia italiana não tem credenciais para demolir os monumentos do período fascista, pois nela própria há formas ainda mais graves de ditadura, assim também ocorre com os unionistas americanos [da Guerra Civil], que não possuíam credenciais para demolir os monumentos dos oficiais-generais confederados. Os nortistas estavam comprometidos com a escravidão não menos que os sulistas, e os democratas não menos que os republicanos: a sempiterna Nancy Pelosi, que hoje atiça o fogo do anti-racismo para prejudicar Trump, esquece deliberadamente que Lincoln não era democrata, mas republicano.

O movimento BLM conta com o apoio dos liberais, inspirando-se no iluminismo e na ética kantiana, para a qual o outro deve ser tratado como um fim e não como um meio. Mas os iluministas — a começar por Voltaire — eram racistas. O próprio Kant era racista. A estátua da deusa razão custou a vida de muitas outras estátuas que, de acordo com o jogo partidarístico, foram decapitadas e destruídas. Positivistas como Lombroso, herdeiros dos iluministas, eram racistas. Se o antirracismo do BLM é inspirado por fontes racistas, significa que não defende o verdadeiro antirracismo, mas a substituição de um racismo por outro.

Isso faz recordar quando, na teologia católica dos anos sessenta e setenta do século passado, se desenvolveu a “teologia negra”, segundo a qual Deus era negro, porque apresentá-lo como branco podia ser considerado uma posição racista endossada pela Igreja. Pelo mesmo bizarro motivo, a teologia feminista dizia que Deus é feminino e não masculino. Mas por que razão um Deus negro não seria racista como um Deus branco?

No entanto, o que está acontecendo nos Estados Unidos vai além dessas considerações. Vai além de um jogo entre partidos. Não expressa somente a condenação do passado americano, ou da identidade americana, ou da cultura e da civilização ocidentais acusadas de ser brancas, como poderia sugerir o ódio demonstrado à estátua de Colombo. Se fosse esse o caso, seria um racismo oposto, preto em vez de branco, antiocidental em vez de ocidental, dos supostos oprimidos contra os supostos opressores. Seria dizer “não” a algo para dizer “sim” a outra coisa; e, sobre esse “sim”, construir novas estátuas, novos heróis e novas festas de ação de graças.

No movimento BLM, no entanto, se entrevê um outro estilo destrutivo: a vontade de destruir estátuas somente por ser estátuas e expressão de uma certa hierarquia de valores, enfim, expressão de alguma ordem. Há como que um desejo de arrasar com o passado, incriminar toda posição mais firme sob a acusação de ser racista em relação aos outros. O desejo de um mundo sem estátuas, sem fins e causas pelas quais alguém possa se tornar herói. Um mundo sem heróis.

Por que a vontade de destruir as imagens de Jesus e Nossa Senhora? Também na Holanda, e não apenas nos EUA, o BLM danificou uma Nossa Senhora Negra de Czestochowa. Por que remover a pintura de São Miguel Arcanjo que esmaga o diabo? Da luta contra os símbolos de um racismo americano ideologicamente interpretado — os dados sociológicos sobre a violência entre negros e brancos nos EUA não a confirmam —, passou-se à luta contra o simbolismo religioso cristão. Não só contra o general Robert Lee, mas também contra Jesus Cristo.

Quando se toma o caminho do niilismo, é preciso destruir não apenas os elementos que compõem a ordem visada, mas também a sua Causa última. O niilismo é de natureza dissolvente e, portanto, destrói as estátuas que testemunham aspectos ou protagonistas da ordem; mas, em seguida, é necessário ir até o fim e culpar o próprio Fundamento da ordem, que é Deus. No movimento BLM existe esse niilismo, em relação ao qual todo o resto não passa de instrumento. Aqui não há mais apenas ideologia, porém uma vontade destrutiva e profanadora que pretende descer até as raízes.

É difícil negar que esteja a serviço da “nova ordem mundial”.

https://lanuovabq.it/it/questo-antirazzismo-e-un-attacco-a-dio