escravidão do celular

Nestes tempos de debates estéreis sobre as escravidões do passado que já não existem mais, sobre épocas já submersas, embora constantemente trazidas de volta à tona, vale mais a pena concentrar-se em coisas que permanecem. A História, nas palavras de Paul Valéry, não é “o veneno mais sutil que a química do intelecto já desenvolveu”?

A escravidão contemporânea mais poderosa, e especialmente a mais insidiosa, é a da conexão permanente. Quais são as suas ferramentas?

Muito simplesmente, as do condicionamento animal. De fato, o poder de magnetização das telas, em nosso espírito, se deve à exploração racional e sistemática das descobertas feitas sobre o condicionamento animal e humano desde meados do século XIX.

Na verdade, foi a exploração inteligente desses trabalhos clássicos que permitiu à engenharia social distrair radicalmente nossa atenção daquilo para a qual ela foi originalmente programada: identificar perigos iminentes afim de proteger o grupo ou a tribo; concentrar-se de maneira duradoura num objeto, a fim de forçá-lo, por seu engenho, a um emprego útil; entrar em comunicação com outras pessoas, para aprender as múltiplas linguagens do corpo; e, acima de tudo, examinar cuidadosamente os mistérios do Além, devido ao rápido esvair-se da vida terrena.

Foi assim que, no espaço de duas décadas, a tecnologia da informática se tornou uma tela interposta entre o homem e a Eternidade. Quer desejemos ou não, a internet global está prosperando na esteira de uma reductio ad bestiam da espécie humana. Portanto, seremos tratados com tanto respeito quanto o cachorro de Pavlov, o rato de John Watson ou o pombo de Frédéric Skinner.

No entanto, um grande avanço foi feito desde o período entre as duas guerras… Com a Internet permanentemente alimentada por nossos gostos pessoais, seus engenheiros sociais poderão nos direcionar prazerosamente para os sites e espaços virtuais que quiserem, evidenciando-se assim nossa dimensão animal. Dessa forma, mantidos enjaulados por nossos instintos mais baixos, faremos de nós mesmos, de bom grado, prisioneiros de nossa ignorância. O esquecimento daqueles clássicos que investigaram o condicionamento dos animais e do ser humano está, portanto, na raiz de nossa escravidão psíquica.

Tudo isso foi cuidadosamente orquestrado por uma engenharia universitária, que privou os estudantes das únicas ferramentas intelectuais que lhes permitiriam crescer: leitura silenciosa e a disputatio, substituindo-as por condicionamento ideológico e hiperespecialização técnica.

Essa caixa vazia, alimentada por centros de pesquisa onde falsários constroem meticulosamente ciências truncadas, encontra-se naturalmente aliada à educação digital, que de educação tem apenas o nome.

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