chimpanzé

Chesterton dizia que não há finalidade humana mais digna que a de encontrar algo para amar; mas logo atrás, em segundo lugar, estará certamente encontrar algo que combater. O encontro com um objeto de amor já indica no mesmo ato, necessariamente, um objeto de repulsa e ódio. Quem escolhe amar a Deus irá, automaticamente, odiar o demônio. Em termos políticos, quem escolhe amar o Brasil e a tradição ocidental que o formou, vai desejar combater todas as forças irracionais, “pós-modernas”, que pretendem dilui-lo na maionese globalista: multiculturalismo, ideologia de gênero, panteísmo ambientalista, narcotismo, estatismo, controle demográfico.

Foi o que percebeu o grande escritor inglês, ecoando uma verdade bíblica que remonta à antiga sabedoria hebraica: não há descanso sobre a face da terra, “todas as coisas se afadigam” (Eclesiastes, I, 8). A prática do amor há de gerar, obrigatoriamente, uma guerra contra as odiosas forças contrárias ao objeto do mesmo e amado amor. Quem ama, luta; portanto, a paz decorrente de todo ato de amor é passageira, uma trégua efêmera em vista da batalha seguinte. Nada se opõe-se mais à natureza do amor do que a atual mentalidade pacifista, que busca iludir o ser humano com outra mentira inventada pelo pai da mentira: a de que é possível construir uma sociedade de “paz e amor”. É suficiente ler os bons poetas para compreender que o amor tem a ver com tudo, menos com paz.

Mas nossa época conta com formas estranhas de amor e, por consequência, de ódio. Há um escritor contemporâneo, muito em voga nos círculos “pós-modernos”, sobretudo ambientalistas, que escolheu amar os animais. Trata-se de Peter Singer, professor de filosofia, australiano de nascença; ensina nos EUA, dedicado especialmente à bioética.

Esse professor ama os animais de maneira pouco usual, diferente do amor que a menina dedica a seu gato ou o velho aposentado ao canarinho na gaiola.  Julga que sua missão, neste mundo, é libertar os animais do jugo humano. E, ao escolher amar os animais, já indicava qual era o odiado objeto de seu combate: a espécie humana, à qual parece pertencer bem contra a sua vontade. Seu amor pelos animais tem, como contrapartida, um profundo ódio pelos homens, que são o objeto de sua repulsa e de seu combate. Combater o bom combate, para Singer, é combater o ser humano, origem de toda a desarmonia cósmica.

Para Peter Singer, a Bíblia está errada, quando diz que animais foram feitos para servir aos homens, os quais também não passam de animais, com o agravante de serem dotados de algo terrível: a razão. Condena impiedosamente os homens: são assassinos que não matam só para saciar a fome, mas “por esporte, para satisfazer a sua curiosidade, para embelezar o corpo e para agradar ao paladar (…) por cobiça e por desejo de poder (…). Os seres humanos matam, além disso, os membros da sua própria espécie (…) mostraram uma tendência para atormentar e torturar tanto seus semelhantes humanos como seus semelhantes animais, antes de fazê-los morrer.” O vegetariano Singer não se conforma com o holocausto de animais (milhões de bois, porcos, aves) que são abatidos, a cada ano, para satisfazer a fome do Animal Racional, além de milhões de outros sacrificados em laboratórios científicos. (Peter Singer, Libertação animal, 2004)

Existe, hoje, a possibilidade de mudança de sexo. Se já houvesse a de mudança de espécie para os inconformados com a própria humanidade, para os que, em vez de superar a condição humana pela vida virtuosa e espiritual, preferissem regredir a um ponto anterior da evolução das espécies, certamente o filósofo Singer se candidataria. O professor não ficaria mal como chimpanzé. Na certa, perderia sua cátedra na Universidade de Princeton, mas poderia negociar com o reitor ou o órgão colegiado a possibilidade de viver nas árvores do campus, divertindo os alunos com suas momices, que é o que ele mais parece gostar de fazer com suas ideias.