mito

[Stefano Fontana faz um balanço dos últimos meses de pandemia na Itália e destaca os mitos que foram criados pelo poder político em torno do Covid-19. O primeiro é o mito mesmo da pandemia, com dados que ainda não fazem muito sentido; depois o mito da emergência visando o fortalecimento do poder; o mito da ciência, dos especialistas e dos virologistas; o mito do medo alimentado pela mídia durante 24 horas; o mito do “juntos podemos”; e o mito, na Igreja, de que antes de sermos bons cristãos, devemos ser bons cidadãos].

Quando a razão se separa da fé, acaba por cair no mito. É um dos grandes ensinamentos de Bento XVI. O oposto também era verdadeiro para ele: quando a fé se separa da razão, também cai no mito. A queda da religião no mito é o fideísmo, a queda da razão no mito é o racionalismo: são duas religiões míticas. No famoso discurso de Regensburg de 2006, o Papa explicou-o muito bem. Em nosso tempo, notamos que, por um lado, é exaltada uma certa religiosidade mítica, como a panteísta, idólatra e animista dos primitivos (lembremos do sínodo da Amazônia). Por outro lado, a razão política se alimenta precisamente de mitos políticos. Nos dois casos, o que falta é racionalidade.

Durante a pandemia do Covid-19, a política inventou muitos mitos com função autoconsoladora ou de serviço ao poder político. No mito da emergência, o poder pode ser fortalecido e tornar-se mais invasivo, precisamente para combater a emergência. Aumentava-se o controle, as liberdades eram limitadas com o consentimento de todos, as disposições autoritárias aceitas até com satisfação — e o poder se comprazia com tudo isso.

Atrás do mito da emergência vinha uma outra mitologia: as coletivas de imprensa dos governantes, os relatos jornalísticos da mídia televisiva, a retórica sentimentalóide na publicidade das grandes marcas (“esperamos para te abraçar em breve”), os “novos heróis”, os desfiles litúrgicos das forças-tarefa, a captação de recursos na TV para proteção civil, mesmo que as guarnições tenham sido fechadas.

O primeiro grande mito foi, sem dúvida, o da própria pandemia. Sua mortalidade foi inferior a 4%. As numerosas mortes ocorreram devido à falta de estrutura sanitária. As vítimas que morreram com Covid não morreram de Covid, mas de outras doenças (ou porque os locais de terapia intensiva não estavam disponíveis). A própria Covid foi, pois, transformada em mito.

Um segundo mito foi sem dúvida o da ciência e, em particular, dos virologistas. Nenhum deles nos deu certezas, suas opiniões sempre foram conflitantes, muitos deles aproveitaram a oportunidade para aparecer na TV e vender livros… No entanto, o governo sempre se escondia por trás da opinião dos “cientistas”. As pessoas estavam convencidas de que era necessária uma vacina, os médicos adversários eram silenciados, chegava o financiamento de Bill Gates chegava e o processo de “tratamentos de saúde obrigatórios” (TSO) prosseguia, porque a ciência assim o dizia.

O mesmo aconteceu com o mito do medo. O alarmismo excessivo é explicável, dadas as deficiências sanitárias mencionadas acima, mas não quando comparado à verdadeira extensão da epidemia em nosso país. As muitas medidas sem sentido (não se podia andar mais de 200 metros longe de casa) contribuíram para alimentar o medo. As emissoras de TV, ocupadas 24 horas para falar sobre Covid, atuaram como força motriz de um sentimento generalizado de medo que ainda reluta em dissolver-se, mesmo agora com o problema já muito redimensionado. Muitos idosos ainda não vão à Missa devido a esse persistente medo artificial. Os regimes sempre fizeram uso dos mitos e dessa espécie de medo induzido.

Em seguida, foi criado o mito do “juntos podemos”. As opiniões divergentes eram estigmatizadas, inclusive as manifestações públicas (mesmo se em conformidade com as regras impostas). O Parlamento interrompeu seu trabalho e os partidos de oposição mais críticos foram acusados de não colaborar, pois na emergência todos deviam estar unidos. Mitologizou-se um inimigo hipotético para condenar os fronts internos e acusá-los de derrotismo. Vozes dissidentes foram silenciadas; e aqueles que diziam que certas medidas pareciam irracionais e prejudiciais, eram atingidos pela suspeita do público.

Outro mito criado foi o dos especialistas. O governo cercou-se de muitos grupos de especialistas, não apenas para lidar com o vírus do ponto de vista sanitário, mas também para decidir o que fazer depois do vírus. Foram convocados os Estados Gerais e a situação tornou-se realmente ridícula: os atrasos e as evidentes incompetências eram escondidos sob o mito dos Super-Heróis Super-Competentes Super-Pagos.

Todos esses mitos também foram bem assimilados pela Igreja Católica, que não conseguiu dizer palavras de verdade e até se mostrou mais rígida na aplicação dos comportamentos exigidos pelos novos mitos. A Igreja, com sua nova mitologia, impedia a genuflexão dentro dos templos, mesmo se o governo não o exigia. As inconsistências, as disposições abstrusas e contraditórias dos funcionários dos ministérios foram aceitas sem discussão (porque se permitiam 70 pessoas em uma igreja e no caso de um funeral só 15?). A razão política transformada em mito produziu uma mitologia religiosa difícil de extinguir-se: os parques agora estão cheios de pessoas e crianças sem nenhuma proteção, mas nas igrejas ainda há necessidade de medir-se a febre antes da Missa, distância entre os fiéis, cadeiras presas ao chão com fita adesiva para que não sejam removidas e, após a bênção final, a “equipe de serviço” vem buscar o fiel e levá-lo para fora.

Na Igreja se espalhou o mito de que a primeira condição para ser um bom cristão é ser um bom cidadão; e que ser um bom cidadão significa executar sem discutir as decisões — muitas vezes absurdas e inconstitucionais — do governo de plantão.

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