Santiago_Cantera

[Trechos de entrevista com o monge Santiago Cantera, que é historiador medievalista e prior da abadia beneditina de Santa Cruz del Valle de los Caídos, na Espanha].

CASTIGO DE DEUS. Especialmente desde Pio XII, os sucessivos papas assinalaram, com frequência, que a sociedade ocidental perdeu a consciência do pecado. Vivemos em um neopelagianismo e em um relativismo, porque se perdeu o sentido da Verdade e do Bem, e se esqueceu Daquele que é em si mesmo a Verdade e o Bem supremos.

Penso que tudo isso provém do desenvolvimento das correntes filosóficas subjetivistas ao longo da Modernidade, que negam a existência da Verdade como uma realidade objetiva e consideram que é o sujeito quem configura o mundo externo.

Por outro lado, o “politicamente correto” introduzido hoje em muitos ambientes da Igreja e a escassa formação teológica não permitem compreender o que se entende por “castigo de Deus”, que possui fundamento bíblico. O castigo, entendido corretamente, não é próprio de alguém mau e cruel, mas de quem, a partir de sua bondade paterna, vale-se desse meio pedagógico para corrigir a quem não foi possível educar de outra maneira (e que, a partir daí, melhore sua conduta com arrependimento e espírito de conversão).

Em relação à pandemia atual, não ouso dizer que seja um castigo de Deus, porque não sei: ele não nos revelou. Mas o que eu não duvido é que seja uma oportunidade de ouro para o ser humano refletir sobre a debilidade de sua própria condição: ele acreditava-se o senhor de tudo através da técnica e da ciência quando, na realidade, nada pode fazer sem Deus. É uma oportunidade de conversão, de um retorno a Deus de nossas sociedades, mas temo que não se esteja tirando da situação o proveito que seria desejável.

Mesmo entre nós, os católicos, deveria ser um momento de intensificar a oração e o culto — mas dá a impressão, às vezes, que temos feito o contrário na Igreja… Parece que estávamos, em meio à pandemia, mais preocupados em cumprir as normas sanitárias (inclusive indo mais além daquelas indicadas pelas autoridades civis) do que em rezar e tratar a Deus, na Santa Eucaristia, como Ele realmente merece.

AS ABERRAÇÕES DA PÓS-MODERNIDADE. Os ataques à vida humana em seus estágios mais frágeis, através do aborto e da eutanásia, clamam ao céu, assim como os homens brincarem de serem deuses através da manipulação genética. Por outro lado, a ideologia de gênero, que é insustentável filosófica e cientificamente, e supõe a própria negação da natureza e do ser humano, é imposta por lei e a maioria da mídia proclama a caça e captura de quem quiser falar com liberdade sobre esses dogmas irracionais. A pressão sobre os cristãos é exercida de maneira sutil no Ocidente, desacreditando sua fé e a Igreja, mas crescem cada vez mais ataques violentos contra templos, imagens e crentes. Não há hesitação em zombar da fé cristã e insultar abertamente a Cristo e à Virgem Maria, com total impunidade por parte dos autores desses ataques, o que é justificado alegando-se que tudo isso são “performances” artísticas… Quão baixo foi cair o conceito de arte e cultura! Muito do que vivemos parece ser uma mistura das sociedades descritas por George Orwell em seu romance distópico 1984 e por Aldous Huxley em Admirável mundo novo.

MALES DO COMUNISMO E DO HEDONISMO CAPITALISTA. Falharam todos os poderes políticos que tentaram arrancar a fé do coração dos povos. É uma evidência ao longo da história e comprovado nos últimos tempos. A experiência do comunismo é o melhor exemplo disso, em uma época ainda recente: a fé que, durante os anos de perseguição, foi mantida com maior ou menor presença aberta na sociedade, reapareceu com nova força. Basta ver os casos da Polônia ou da Rússia, entre outros. Mas a perseguição atual é, às vezes, mais sutil: consegue mais ao evitar-se a violência direta e buscando mais o descrédito midiático do inimigo. O mesmo se aplica ao hedonismo capitalista: causou mais danos à fé dos povos do que décadas de ateísmo doutrinário e perseguição comunista.

MUDANÇA DE PARADIGMA? A verdade é que é um momento de grande incerteza e é muito difícil saber que curso tomarão os acontecimentos e como reagirão as várias nações. Obviamente, o covid marca um antes e um depois, entre outras coisas, porque a China parece aumentar seu poder em todo o mundo; e grande parte da Europa e dos Estados Unidos pode entrar em uma crise sem precedentes. Não é fácil saber se o caminho para essa “nova ordem mundial”, parcialmente favorecida por essa situação, será bem-sucedido ou encontrará sérias dificuldades.

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