omofobia

Pensando bem, não é tanto a liberdade que deve nos interessar, mas a verdadeira liberdade, a liberdade verdadeiramente livre. A liberdade exige que, antes dela, exista a verdade. A liberdade não pode dar-se livremente a verdade, porque ninguém se dá o que não tem. Se a liberdade desse a si mesma a verdade, a daria livremente, isto é, sem a razão, o que seria uma verdade não razoável e, portanto, não verdadeira.

A verdade não pode vir depois da liberdade, mas antes. Sobre isso, devemos ser muito claros conosco. Uma verdade que viesse depois, seria uma verdade escolhida e não encontrada, desejada e não acolhida; portanto, conseqüência de um ato do sujeito que teria valor como tal e, assim, desprovido de verdade, porque a verdade seria acrescentada mais tarde, como sua conseqüência. Se a verdade é a conseqüência da escolha e não sua motivação, a escolha é desmotivada e, portanto, não verdadeira. Como uma escolha injustificada e falsa poderia motivar a verdade? Seria como pensar que a ordem deriva da desordem, que a razão deriva do acaso, ou seja, que o mais venha do menos.

A precedência da liberdade em relação à verdade é infundada e não defensável, porque isso exigiria partir de uma verdade. Quem a proclama, assume-a como um postulado ou dogma secular. Grandes filósofos, como Cornelio Fabro, Etienne Gilson, Augusto Del Noce, Joseph Pieper, ou grandes teólogos, como Ratzinger, têm evidenciado o caráter “postulatório” do pensamento moderno, quando ele faz preceder a liberdade em relação à verdade, o ato antes do conteúdo.

A verdade deve, portanto, preceder a liberdade. E o que é que que precede tudo e é verdadeiramente original? Qual é o primeiro objeto de conhecimento de nosso intelecto, objeto que precede e funda os conhecimentos que dele se possa ter? Esse objeto é a realidade, aquilo que os filósofos chamam de Ser. Ela vem entes de tudo. De fato, a pessoa é, existe, possui o ser, antes de exercitar a própria liberdade. Para poder querer, escolher, decidir, agir, eu primeiro devo ser. E ser significa ser, contemporaneamente, entre as coisas: existir, ser algo, ser alguém. Posso ser livre somente enquanto sou; se sou alguma coisa; e se sou alguém. Minha natureza como homem vem antes da minha liberdade e a fundamenta. De fato, sou livre porque sou homem; não sou homem porque sou livre. Ninguém escolhe a si mesmo livremente, ninguém decide ser, todos nos acolhemos como seres livres. Nossa existência vem após a nossa essência e é de alguma forma regulada por ela. O dever de ser homem vem antes do direito de ser homem: o dever estabelece o quadro do direito.

Exponho essas poucas ideias sobre a verdadeira liberdade para salientar que, quando lidamos com problemas sociais e políticos, não devemos parar para reivindicar apenas liberdade, mas devemos ser impelidos a falar sobre a verdadeira liberdade. Recentemente, neste jornal, o tema foi particularmente levantado por dois artigos. Um deles, escrito pelo autor dessas linhas, argumentou que, ao se opor aos ditames do governo sobre liturgia durante o confinamento, a Igreja deveria não apenas reivindicar a liberdade de religião, mas a Libertas Ecclesiae, a liberdade da Igreja com base em sua própria natureza. Não só nos direitos do cidadão, que também podem ser convencionais e reversíveis, mas nos direitos da Igreja de cumprir o dever de ser ela mesma.

Outro artigo foi o comentário, feito por Tommaso Scandroglio, da recente declaração dos bispos italianos sobre a chamada lei contra a homofobia. Aqui também, se eu entendi corretamente, foi dito que era insuficiente se opor à lei apenas com base no direito de expressar as próprias opiniões, devendo-se antes referir-se à natureza das coisas. Ao recorrer-se apenas ao direito à liberdade de religião, como no primeiro caso, ou de opinião, como no segundo, alcança-se a liberdade, mas não a verdadeira liberdade, uma liberdade verdadeiramente livre. Alcança-se uma liberdade infundada, assumida como um postulado, imotivada, convencional; uma verdade fundada apenas em si mesma; portanto, fundada em coisa alguma. Como quando se pergunta a alguém o porquê e esse alguém responde: “Porque sim”. Ou como quando se pergunta a uma criança por que ela gosta de algo, e ela responde: “Porque eu gosto”.

Essa liberdade sem verdade é, por um lado, totalitária e, por outro, devastadora. É totalitária pois, sendo um ato imotivado que não pode se explicar, só pode impor-se. Sua verdade reside nos efeitos práticos que obtém. O critério só poderia ser eficiência e efetividade. É devastadora, porque elimina o indisponível, que é como de fato a verdade é. Tudo se torna disponível, tudo se torna relativo, tudo se torna propriedade de quem o toma. Nunca devemos cair nessas armadilhas.

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