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São inegáveis as origens ideológicas e políticas de boa parte do atual discurso de “compromisso com a vida”, saído da boca dos que defendem o confinamento radical contra a pandemia do coronavírus, e que se exprime sobretudo no lema “fique em casa”, repetido ad nauseam por todos os meios de comunicação.

O fato é que, uma vez disseminado, tal discurso tem tudo para prosperar, preferencialmente, em ambientes de aposentados ou de funcionários públicos, que continuam recebendo normalmente os salários, mesmo com a interrupção do serviço.

São, os últimos, pessoas profissionalmente estáveis (e desse grupo faz parte quem escreve essas linhas), para quem a vida deve ser encerrada, permanentemente, num blindado nicho de proteção, cujo ideal máximo, além do emprego vitalício, inclui morar em condomínio fechado e pagar um bom plano de saúde (como escarneceu certa vez, em entrevista, o poeta Bruno Tolentino). Em geral, não conseguimos aceitar que “viver é muito perigoso: sempre acaba em morte”, palavras que Guimarães Rosa botou na boca do jagunço Riobaldo, em Grande sertão: veredas.

A simples ideia da morte apavora o burguês bem acomodado que somos nós. Vivemos, nos últimos meses da pandemia, num verdadeiro “congresso internacional do medo”, para lembrar o título de um famoso poema de Drummond. Medo, diz o poeta, que “esteriliza os abraços”; medo que é “nosso pai e nosso companheiro”. E relaciona várias fontes desse medo onipresente: medo dos sertões, dos mares, dos desertos, dos soldados, das mães, das igrejas, dos ditadores, dos democratas, enfim, o medo da morte e de depois da morte. “Depois morreremos de medo”, conclui o poeta, “e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.

Percebeu o poeta, com agudeza, a radical incompatibilidade entre o medo e o amor: “Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos”. O homem, dominado pelo medo, está involucrado no próprio eu, fechado em concha, sonhando em retornar ao condomínio fechado do ventre materno e ali permanecer protegido, recurvo sobre si mesmo, ao abrigo do tempo e do espaço reais.

A vida real não é assim. Ao contrário, é preciso lutar sempre contra o medo, que paralisa o ser e deixa em vantagem o front inimigo. “Deus não nos deu um espírito de timidez”, observou São Paulo em sua segunda carta a Timóteo (I, 7) E se o medo não vem de Deus, provém obrigatoriamente dos três principais adversários da pessoa humana: a carne, o mundo e o diabo.

A necessidade de lutar contra o medo não pressupõe, automaticamente, o elogio do perigo. Não se trata de amar o perigo. “Quem ama o perigo nele perecerá”, já alertava sabiamente o livro do Eclesiástico (III, 27).

O cuidado prudente com a preservação da vida é coisa perfeitamente cristã. Já o cuidado exagerado, ao ponto de colocar em risco a própria organização econômica e social de uma nação, é coisa materialista, ateísta, irracional; produto, sem dúvida, de uma sociedade que já não mais crê na vida após a morte, histericamente mais preocupada com esta nossa vidinha terrena aqui e agora, nossa pobre “vida de aquém túmulo”, como dizia o já mencionado Guimarães Rosa.

A pedagogia dos cuidados fundamentais contra o contágio, no presente imbroglio sanitário, não pode perder de vista o mundo real, que nos impõe ao mesmo tempo duas coisas difíceis de conciliar: a preservação das pessoas mais suscetíveis ao vírus e a manutenção das instituições sociais necessárias à vida. O que passar disto não se fundamenta no senso comum, mas na areia movediça do medo ou no terreno minado das maquinações políticas.

— Fique em casa se puder, vá trabalhar se necessário — parece dizer Dona Realidade, que vive de nos propor tarefas difíceis e muitas vezes paradoxais.