hobbes

[Padre Leonel Franca sintetiza bem o materialismo de Hobbes e seu pensamento político, que deu munição teórica aos reis absolutistas de sua época que, com mão de ferro, buscariam controlar o homem-lobo-do-homem, em perpétua luta com os seus semelhantes. Se o filósofo inglês vivesse hoje, certamente teria uma cátedra em Harvard e um think tank globalista na web para apoiar os artífices do governo mundial, que veem na soberania nacional e na liberdade das pessoas o maior empecilho à paz dos povos. Creem que somente um Leviatã planetário conseguiria evitar mais guerras entre os Estados e a destruição do planeta em que vivemos: um trans-Estado totalitário chefiado pela ONU e seus organismos, com pleno apoio dos tiranetes que vemos atuar agora, durante a pandemia, com o pretexto de proteger vidas. O poder quase divino que emanava do chefe de estado hobbesiano era só um prelúdio da condição divina a que aspira o governo mundial, um deus diabólico e devorador produzido pelas próprias mãos humanas, permanentemente além do bem e do mal. O lúgubre monstro hobbesiano não está morto].

Amigo e discípulo de Bacon, Tomas Hobbes (1588-1679) forçou até ao materialismo as consequências dos princípios do mestre. Suas obras mais conhecidas são: Leviathan, sive de Materia, Forma et Potestate civitatis ecclesiasticae et civilis (1651-1670), Elementa Philosophica em três partes: De corpore (1655), De homine (1658), De eive (1642).

“A experiência é a mãe da ciência”, proclamara Bacon. Ora, diz Hobbes, a experiência só nos atesta a existência dos corpos. Logo, só os corpos existem; só de corpos trata a filosofia, de corpos físicos a filosofia natural, de corpos morais a filosofia civil ou social. A alma é substância corpórea composta apenas de uma matéria mais sutil. Um ser espiritual seria incompreensível. Em consequência, todo conhecimento se reduz à sensação e esta a um movimento ou imutação material do órgão. A vontade é função exclusiva do estado fisiológico do organismo.

Mais do que pelo seu materialismo é Hobbes conhecido como autor de uma das mais esdrúxulas teorias acerca da origem do estado e da autoridade civil. A condição primitiva da natureza humana, opina ele com Epicuro, foi a vida isolada e independente, em que os homens, profundamente egoístas e isentos de qualquer lei moral, viviam em perpétua luta com os seus semelhantes: bellum omnium in omnes, homo homini lupus. Compreendendo, porém, que a guerra era inimiga do progresso e que a paz e a união seriam de maiores vantagens para os seus interesses, instituíram, por um pacto livre, a sociedade civil.

A conservação deste novo estado, continuamente ameaçado na sua existência pelos instintos egoístas, persistentes no fundo da natureza humana, exige um Poder forte, capaz de reprimi-los energicamente. Semelhante poder só se encontra num tirano único, despótico, irresponsável. A monarquia absoluta é, pois, a única forma de governo que, apesar de seus inconvenientes, pode assegurar a paz social e impedir a volta à pior das condições da vida: o estado de guerra permanente.

Tal, segundo Hobbes, a origem da autoridade civil — Leviatã ou monstro horrível que devora e absorve todos os direitos individuais.