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As exigências filosóficas da fé católica andam agora tão fracas, que em todos os filósofos acaba-se por encontrar algo de católico. Isso aconteceu com a filosofia de Emanuele Severino, nascido em 1929 e morto em 2020. O próprio jornal Avvenire (dos bispos italianos) não quis ficar de fora do obituário e saiu-se com um artigo celebratório (na página 17 da edição de 22 de janeiro de 2020). É a lei do diálogo que agora prevalece, em substituição à disputa filosófica: deve-se procurar o que é bom em toda parte, e o que é bom — diz-se — é automaticamente católico…

Se se toma, aqui e ali, alguma coisa de Severino, pode-se encontrar algo de válido, mas se descemos ao fundamento de suas ideias as coisas mudam: descobre-se que o seu ataque ao niilismo (que, de Parmênides em diante, teria caracterizado a filosofia ocidental), incluindo a filosofia cristã, é do tipo niilista. Afinal, isso já não havia acontecido com Nietzsche e Heidegger? Mesmo estes já tinham acusado o pensamento ocidental e o próprio cristianismo de niilismo, mas o faziam enquanto niilistas, isto é, sem propor nenhuma salvação (filosófica) do niilismo. É estranho que os católicos aplaudam um pensador para quem o próprio o cristianismo não passaria de niilismo.

Pode ser útil, neste debate póstumo sobre Severino, tomar um texto do padre Cornelio Fabro. Ele contém as observações, expressas em três “votos”, do filósofo tomista sobre o pensamento de Severino, a pedido da Congregação para a Doutrina da Fé, liderada pelo cardeal Francesco Seper. A publicação é de 1979, mas foi redigida na década de 1960, quando surgiram dificuldades em relação à permanência de Severino na Universidade Católica, em Milão. Em uma carta a Fabro, em 1970, escrita após uma reunião no Palazzo del Sant’Uffizio, Severino escreve que reconheceu o estilo do filósofo estigmatino [Fabro era padre da ordem dos estigmatinos] nas observações que lhe foram submetidas pela Congregação; e agradece porque, em seu juízo, se tratava da “compreensão mais penetrante e mais concreta do meu trabalho”. Como se pode ver, eram os bons tempos das disputas e não do diálogo: honrava-se o mérito do adversário, mas nenhuma complacência quanto ao conteúdo.

Segundo Cornelio Fabro, no próprio interior da Universidade Católica, em meados da década de 1960 do século passado, realizava-se pelas mãos de Emanuele Severino a mais coerente e dificilmente superável destruição da metafísica. Tratava-se da consequência, segundo ele, “do equívoco da orientação teórica dominante naquela universidade católica de conciliar o imanentismo pós-cartesiano com a transcendência cristã”. Fabro reconhece a “coerência férrea” de Severino, a intenção de “ir até o fundo”; e diz que seu Retorno a Parmênides é “o texto mais estimulante da filosofia italiana contemporânea”. Elogios que, dado o seu conteúdo, expressam grande preocupação mais que agrado.

Segundo Fabro, Severino sustenta que o desaparecimento de Deus do horizonte humano é consequência da meta-física, que fez o homem se distanciar de Deus. A metafísica separaria o pensamento e o ser; seria necessário, portanto, retornar à “estrutura originária”, isto é, à identidade do pensamento e do ser. Severino, segundo Fabro, está no lado oposto a Hegel, mas se coloca dentro das premissas do idealismo de Giovanni Gentile, que identificava o pensamento e o ser como um ato puro. Dos dois grandes filósofos do idealismo italiano, quem exerceu uma influência mais profunda e duradoura foi Gentile e não Croce. Nele, o princípio moderno da imanência do ser no pensamento, conheceu a instância mais radical no ato como princípio e fim. Depois de Gentile, parece haver-se encerrado definitivamente o longo parêntese da metafísica; a consciência humana poderia, agora, ser completamente mundana e só na história poderia dar-se a verdadeira autenticidade do homem.

Muitos seguidores de Gentile já haviam se colocado nesse caminho, embora de maneira diversa, como Guido Calogero e Ugo Spirito, mas Fabro acredita que todos foram ultrapassados por Severino, que considera a ciência, a filosofia, o marxismo e o cristianismo como pertencentes à mesma área do “niilismo ocidental”, com a perda da verdade originária, que é o Ser uno e imutável. Para Fabro, Severino concorda com a afirmação moderna, segundo a qual o cogito não conhece nenhuma forma e não é, ele próprio, uma forma, destruindo com isto a metafísica. Retorna, assim, ao ser vazio, crendo que o ente coincida com o seu puro aparecer. Todas as distinções metafísicas — entre essência e ser, forma e conteúdo, sentido e razão —, conteriam segundo Severino a impossível oposição ser/não-ser. Elas deveriam, portanto, desaparecer e a verdade fazer-se imediatez.

A identidade de forma e conteúdo — que, para Hegel, o pensamento conquista dialeticamente, passando pelo negativo — para Severino deve dar-se súbito, sempre e inteiramente. Nessa identidade, não se pode adotar a categoria de causa, a qual, conforme pensava Severino (ainda nas palavras de Fabro), “foi a ruína do Ocidente, porque, ao pretender demonstrar a existência de Deus, levou à vontade de poder e à produção da bomba atômica”.

Nestes dias após sua morte, muitos agradeceram a Severino pelos sinos de alarme que ele vibrou a respeito de muitos aspectos do “crepúsculo do Ocidente”, mas os pressupostos desses sinos são igualmente trágicos, em relação aos perigos denunciados. Se ele tivesse aceitado as críticas de Fabro, teria sido de grande auxílio.

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