padre livi

O jesuíta alemão Karl Rhanner, nascido em 1904 e morto em 1984, foi mais discípulo de Kant e Heidegger que de Santo Tomás de Aquino. É, hoje em dia, o teólogo mais influente nos seminários e universidades pontifícias, e suas ideias passam quase imperceptivelmente das cátedras universitárias para os seminários diocesanos e as pequenas paróquias suburbanas. É dessa forma indireta, mas persistente, que o mundo efetivamente vai tomando conta da Igreja.

Mas Rhanner será mesmo um teólogo? Segundo padre Antonio Livi, em sua a obra Vera e falsa teologia, muito do que hoje passa por teologia não passaria de uma equívoca filosofia religiosa. É o caso de Karl Rhanner: padres e bispos ensinam, hoje, de acordo com sua “falsa teologia”. O filósofo italiano Stefano Fontana, em recente obra sobre o heideggeriano Rhanner, disse que, pelo andar da carruagem, nada impediria o surgimento num futuro próximo de um papa heideggeriano, formado de acordo com a visão gnóstica do filósofo da Floresta Negra.

Como o filósofo Antonio Livi, que por muitos anos foi professor da Universidade Lateranense, distingue a verdadeira e a falsa teologia? A verdadeira teologia católica é aquela que não põe em dúvida a Revelação proposta pela Igreja em seus dogmas. Tais dogmas possuem um conteúdo racional — Deus não revelaria conteúdos irracionais — e são eles o ponto de partida da verdadeira “ciência da fé”, que só podem atuar entre essas estritas balizas. Interpretar cientificamente as verdades reveladas é a sua tarefa. A teologia que nega ou despreza os dogmas é, conforma ensina padre Livi, uma falsa teologia.

A plena liberdade de pesquisa que deve ter a teologia, como qualquer outra ciência (seja na escolha dos problemas a serem abordados, como na proposta de soluções adequadas), não exclui os dogmas, antes exige que seja sempre identificado e respeitado o “núcleo dogmático”, com seu conteúdo racional da fé. Esse é o “limite hermenêutico” do teólogo, para além do qual nenhuma hipótese de interpretação seria científica.

A teologia deixa de ser científica — e, portanto, católica — quando desrespeita o “núcleo dogmático” e o conteúdo racional da fé presente nos dogmas revelados. Se fugir desse território e dessas fronteiras, deixa de ser científica e, ao mesmo tempo, deixa de ser teologia, não passando de filosofia da religião — de uma religião que pode ser tudo, menos católica.

Vera e falsa teologia, do padre e filósofo italiano Antonio Livi, foi lançado em 2012 e reescrito em 2017, ambas edições pela Casa Editrice Leonardo da Vinci. Depois de distinguir rigorosamente a verdadeira e a falsa teologia, passa em revista vários praticantes dessa equívoca filosofia religiosa, como o já mencionado Karl Rhanner, Teilhard de Chardin, Hans Küng, Klaus Hemmerle, Piero Coda, Joahnn Baptist Metz, Vito Mancuso (ainda vivo e muito atuante). Ainda não há tradução brasileira da obra.