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[Continuam os exercícios de futurologia na imprensa mundial. O físico italiano Guido Tonelli, que parece ser fã de Guimarães Rosa, faz no Corriere della Sera a sua projeção para o mundo pós-pandemia. Mesmo que não se aceitem todas as suas afirmações, traz algumas ideias dignas de atenção. Foi escrito e publicado no início de abril, quando os contágios e mortes na Itália ainda eram altos].

Nestes dias de sofrimento e medo, trancado em casa na ansiedade de receber más notícias de entes queridos e amigos distantes, ouço frases consoladoras: “tudo vai acabar bem”, “em breve voltaremos a nos abraçar”, “vamos dar duro por algumas semanas, mas depois tudo voltará como antes”. Eu também me deixo confortar por essas palavras, a doçura das boas intenções me consola, mas realmente temo que não venha a ser assim.

Não gosto de falar dessa pandemia como se fosse uma guerra. Antes de tudo, porque não suporto a linguagem bélica, com seu fundo de ameaça sombria que desencadeia nossos instintos mais primordiais. Quando o medo se instala, a tempestade desencadeada pelas amígdalas toma conta do lóbulo pré-frontal e tetaniza todas as habilidades de raciocínio. Tudo se resume à alternativa de fugir ou permanecer paralisado. Em vez disto, como neste momento, precisamos refletir em profundidade e valorizar a terrível experiência que estamos vivendo.

No fundo, penso que essa pandemia é muito pior que uma guerra. Possui dimensões planetárias e destrói, juntamente com milhares de existências, todo um sistema de organização social. A palavra que mais se adéqua para descrever o que estamos experimentando é catástrofe. O termo pode ser tomado no significado mais comum de grave calamidade, de um desastre repentino que afeta o mundo inteiro. Mas creio que descreve com mais agudeza a situação, se for utilizada em seu significado original de reviravolta.

Enfim, é necessário compreender que, após o Covid-19, o mundo nunca mais será o mesmo. A crise econômica em que entramos será gravíssima, mudará profundamente a economia e todo o modo de produção, e se abalarão os sistemas políticos. Apesar das palavras tranquilizadoras, cada um de nós sente, dentro de si, que há um mundo inteiro que oscila; e um longo período de incerteza e sofrimento nos espera. Mas, acima de tudo, nada será como antes, porque não somos mais os mesmos. Nós mudamos, todos nós; e em profundidade. Nossa concepção do mundo mudou radicalmente. Voltamos a uma visão trágica da existência. E acrescento: talvez seja bom que tenha sido assim, mesmo que, enquanto o diga, algo reaja dentro de mim, porque o preço que estamos pagando é enorme.

Através da dor e do medo, um povo de semiadolescentes de repente se tornou adulto. Algumas semanas de luto e sofrimento colocaram todos diante da dura realidade da condição humana, que permanece extremamente frágil. A angústia das doenças graves e da morte afetou todos os relacionamentos sociais e os fez vacilar. Readquiriram atualidade as considerações que pareciam ter desaparecido do horizonte das sociedades desenvolvidas do século XXI, para as quais epidemias pareciam fenômenos de um passado distante.

Muitos hoje pedem um retorno à situação anterior à pandemia. Mas temos certeza de que queremos voltar ao mundo que hoje tanto lamentamos? Como denunciou Marco Lodoli, em memorável artigo de muito tempo atrás, «Aceitamos que nossas televisões fossem invadidas por pessoas muito aplaudidas, mas incapazes de fazer nada; acolhemos com entusiasmo as vociferações mais analfabetas, os falastrões mais ridículos». Boris Johnson, Donald Trump e Mark Rutte nasceram desse ambiente. Por que maravilhar-se de viver, como afirma o rei Lear, “uma época tremenda em que idiotas governam um povo de cegos”?

Criamos boa parte de nossos filhos na ilusão de que o bem-estar era um direito universal e, em qualquer caso, tinha que haver alguém — família ou Estado — para o garantir. Espalhamos a ideia de que a vida era um filme de Walt Disney ou um Luna Park. Que sempre cabia aos outros precipitar-se no abismo, exceto nós, seres onipotentes tornados quase imortais pelas últimas descobertas técnicas. Até descobrir-se que aquele mundo dourado na superfície, e no qual tudo parecia possível, escondia enormes injustiças, produzindo a devastação da saúde pública em todos os países e deixando desprotegidas e sem futuro as faixas mais débeis da população. Por que milhares de bilhões de dólares estão disponíveis agora para apoiar famílias e empresas, enquanto até alguns meses atrás isso era considerado uma blasfêmia? Por que agora todos aplaudem médicos e cientistas, se antes a redução dos custos com saúde e os investimentos em pesquisa eram um mantra recitado por todos os governos do mundo? Poderíamos continuar a falar por muito tempo de coisas parecidas.

A pandemia nos ensina, ainda hoje, que “viver é muito perigoso”, a grande verdade de Riobaldo, o protagonista cangaceiro do Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Na dura realidade do árido planalto do nordeste do Brasil, os personagens do romance sabem que a vida é dura e cheia de riscos, mas enfrentam de peito aberto as dificuldades da existência e jamais recuam. Nossos pais e avós viveram em épocas nas quais a tragédia pairava sobre suas vidas o tempo todo. E isso os tornou resistentes e determinados, conscientes de que tudo na vida custa esforço e fadiga. Que os resultados alcançados nunca devem ser considerados como algo para sempre e que devemos lutar para melhorar a condição de todos.

Talvez isso nos salve. Essa consciência nos permitirá enfrentar, com um novo impulso, o desastre atual: é a partir dele que teremos de começar de novo. A partir daqui, talvez seja possível construir um futuro sobre bases diferentes que as do mundo frágil que, agora, estamos deixando para trás.

https://radiomaria.it/non-saremo-mai-piu-gli-stessi-quando-finira-la-catastrofe/