farias brito

[Padre Leonel Franca, em sua obra Noções de História da Filosofia, refere-se ao filósofo brasileiro Farias Brito (1862-1917) com respeito, reconhecendo nele o mérito de ter afrontado as doutrinas materialistas e positivistas do período, tendo sido um instrumento nas mãos da Providência para iniciar no Brasil um movimento verdadeiramente espiritualista na primeira metade do século XX. Rechaça, porém, o seu panteísmo, observando que, ao identificar Deus com o  mundo, o filósofo não fazia mais que negá-Lo. E cita o ateu Schopenhauer, que entendia bem dessa espécie de negação: “Dizer que Deus e o mundo são uma coisa só é uma fórmula cortês de desembaraçar-se de Deus”. O texto a seguir são os parágrafos finais do capítulo dedicado a Farias Brito, nos quais padre Leonel Franca refuta a tese do filósofo cearense sobre a morte do catolicismo.]

Morto o catolicismo? Oh! por que não saiu o nosso desventurado pensador desta atmosfera asfixiante, onde não irradia a luz suave da doutrina católica, do convívio destes escritores, pigmeus de um dia, que, na impotência de seu ódio sectário, se comprazem em acumular névoas de sofismas para velar às almas retas e honestas o esplendor eterno Daquele que é luz do mundo?

Por que não saiu deste ambiente escuro e abafado para contemplar com a razão serena e desanuviada de preconceitos essa grande Instituição, que nas promessas de sua origem e no desenvolvimento de sua vida, traz o sigilo inconfundível da Divindade?

A Igreja Católica — que nasceu pobre, humilde e desamparada de todos os meios humanos, adorando por fundador um Crucificado e tendo por apóstolos doze filhos do povo sem instrução e sem glória;

— que, em menos de três séculos, ridicularizada nos seus dogmas, escarnecida na sua moral, martirizada nos seus filhos, regenerou o mundo que se efeminava no prazer e se dissolvia na corrução;

— que, sempre fiel à sua missão de iluminar as consciências e pacificar os corações, não transigiu nunca nem com as imposições da força nem com as seduções do poder;

— que, por vinte séculos, serena e intangível assistiu o esboroar dos tronos, o extinguir-se das dinastias, o desabar dos impérios;

— que resistiu, impávida e compassiva, à violência dos tiranos, aos sofismas dos falsos doutores, ao gargalhar satânico da ironia impotente, à perfídia rebelde de filhos orgulhosos e corrutos, coligados numa vasta conjuração contra a verdade;

— a Igreja Católica — eis a grande realidade divina da história.

Olhos apaixonados vendam-se voluntariamente para não a ver. Homúnculos frágeis, exaltados pelo poderio ou embriagados pelos fumos da ciência, passam diante dela e, esmagados por esta majestade inacessível aos seus baldões, vingam-se proclamando-a morta.

Mas que importa contra a realidade triunfante o grito de desabafo dos vencidos? Há 17 séculos que se cunhou a primeira medalha com o epitáfio: Cristiano nomine deIeto (“Está apagado o nome cristão”). A cena, quase diremos cômica, reproduziu-se mil vezes no curso dos tempos.  Mas a Igreja, firme nas promessas de imortalidade do seu Divino Fundador, contemporiza com dignidade magnânima e, uns após outros, vai enterrando e perdoando os seus inimigos gratuitos de um dia e continuando a semear a verdade e o bem nas almas.

Sim, Farias, o catolicismo vive e só ele pode dar vida. E porque o desconheceste, não só tua obra intelectual foi falha, efêmera e incompleta, mas tua vida foi um peregrinar incerto, amargurado e oscilante entre a dor e o desespero. Comovem-nos até às lágrimas teus gritos lancinantes, gritos de uma consciência que sofre as torturas da dúvida e se abate no acabrunhamento de uma resignação passiva e imeritória à fatalidade inexorável. “Vagamos como sombras na noite do mistério e em vão soltamos queixas e gemidos em face do impenetrável que nos aterra, incertos do nosso destino, perdidos na imensidade do espaço e no infinito do tempo” (Farias Brito, A vida interior, p. 31). A vida é em si mesma um mal irremediável porque tem por essência a dor e viver é sempre e em toda a parte esgotar uma série de grandes e pequenas desgraças” (Farias Brito, A filosofia como atividade permanente do espírito, p. 13).

Não! Na plenitude da história soou a voz inconfundível de um Homem que, abrindo os braços compassivos, bradou à humanidade sofredora: Vinde a mim todos os que vergais sob o peso da aflição e eu vos aliviarei. E esta palavra foi eficaz porque o Homem que a pronunciou era também Deus. Se tiveras prestado ouvido a esta voz divina, se houveras olhado um dia para o Crucifixo com os olhos da “fé que salva”, terias aprendido a solução divina do problema da dor, e, com ela, a chave dos grandes enigmas do Universo. No alto do Calvário não se amaldiçoa a existência; a dor bendita nesta vida passageira ilumina-se com os raios da esperança para transformar-se um dia na paz eterna do amor.

(Padre Leonel Franca. Noções de história da filosofia. 18º ed. Rio, Agir, 1965, p. 325-6)