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O FEITIÇO E O FEITICEIRO. Morreu na atual pandemia, aos 78 anos, o escritor carioca Sérgio Sant’Anna. As postagens do escritor, no facebook, até o final de abril, tinham como alvo o presidente da república. Alvo no sentido literal da palavra: desejava reiteradamente, em público, a morte do presidente. Morte física, não só política. Na comédia da vida, pode perfeitamente ocorrer o que se deseja ao próximo; e foi o que se deu. No dia 28 de abril, Sérgio foi internado com o coronavirus. Como tinha o quer os médicos chamam de comorbidade (em seu caso, graves problemas circulatórios, que o levaram a algumas cirurgias para desobstruir as artérias), não resistiu e morreu menos de duas semanas depois, no dia 10 de maio.

A política deixa todos com maus fígados. Defensores do presidente não deixaram por menos e, na própria página do facebook do escritor, despejaram dezenas de comentários agressivos, cujo teor era basicamente o mesmo: o feitiço se volta contra o feiticeiro. As cruéis (e criminosas, por incitarem ao crime) postagens do escritor ateu provocaram esses incompreensíveis comentários dos adversários cristãos, esquecidos, no calor da guerra política, da reverência que o mistério da morte exige.

Se o tipo de militância de Sérgio Sant’Anna merece pronto repúdio, sua alma merece mais compaixão que insulto. O que custa rezar pela salvação de sua alma? É o que se pode fazer agora por ele. Se para Deus não existe tempo, mas somente um eterno Hoje, nada impede (por mais absurdo que pareça) que Ele atenda a um pedido feito agora para evitar algo que poderia ocorrer ontem: Sérgio morrer na impiedade. Ninguém sabe o que se passou em sua alma atribulada, naquela cama de hospital, naqueles instantes finais de vida. Não custa pedir a Deus a sua salvação, quem sabe através do anjo da guarda do romancista. Padre Pio dizia que deixamos os anjos da guarda muito ociosos.

JORNALISMO IDEOLÓGICO. Um exemplo de como funciona o jornalismo militante está no que aconteceu depois da morte de Sérgio Sant’Anna. Um jornalista de “O Globo” soube dos comentários agressivos no facebook do escritor e escreveu longo artigo lamentando a agressividade dos partidários do presidente, sem no entanto mencionar as postagens do escritor desejando a morte do Bolsonaro. Como o leitor de jornal dificilmente vai conferir, na internet, o que de fato ocorreu, ficará a impressão maniqueísta provocada pelo artigo. O jornalista mostrou o incêndio, sem referência ao material inflamável que o provocou, inventando uma inexistente desproporcionalidade entre a reação dos bolsonaristas e a oposição presumivelmente democrática do escritor ao presidente. Eis o jornalismo que se pratica hoje: má ficção.

O HOMEM QUE NAMORAVA O NADA. Quem era o escritor Sérgio Sant’Anna? Gostava de dizer que namorava o nada. Esperava um dia, certamente na morte, casar-se com o nada, sonho frustrado de todos os ateus. A Igreja Católica era o seu fantasma irremovível. Um dia, em visita a um “museu da tortura medieval”, em Praga, ficou impressionado com os instrumentos que ali viu. Mais impressionado ficou, ainda, com a forma do público reagir: “As pessoas olhavam pra aquilo tudo rindo. Eu não entendo o ser humano!” Tudo isso o predispunha bastante contra o catolicismo. “A Igreja Católica hoje posa de boazinha e tal… Mas, na verdade, a Igreja Católica praticou crimes terríveis”, disse certa vez em entrevista à TV Cultura.

Eis o que acontece com um ex-católico, como Sérgio, quando recusa o que a Igreja ensina sobre a natureza humana: passa a ter uma visão falsa da espécie a que pertence. Como poderia entender o grande mistério da humanidade, sem a perspectiva do Pecado Original? O que mais procurou saber sobre a Igreja Católica, além da inquisição e das cruzadas?

TODA MORTE É UMA TRAGÉDIA? Tem-se falado muito atualmente, a propósito das mortes, que “cada morte é uma tragédia”. A morte da alma danada, sim: nada é mais trágico. Já para as demais, a morte não passa de um drama, o grande drama da separação da alma e do corpo; mas drama com inevitável happy end, pois não há final mais feliz que a salvação eterna. Como não pode haver final mais trágico do que a eterna perdição.