EQM

[Estudos científicos, nas últimas décadas, levaram a reconsiderar a abordagem materialista segundo a qual a consciência é produzida pelo cérebro e, portanto, não haveria pensamento ou consciência em um paciente em estado de morte cerebral.]

De acordo com os resultados de um estudo de 2014, da Universidade de Southampton, é possível ter uma sensação de consciência vários minutos após o coração parar. De acordo com os cientistas que conduziram este estudo — o maior sobre o assunto, abrangendo vários países, trabalhando por quatro anos com 2060 pacientes que sofreram parada cardíaca —, quase 40% dos sobreviventes descreveram uma estranha sensação de consciência, “com detalhes visuais e auditivos precisos” que correspondiam à realidade, depois que o coração parou durante um período em que o cérebro não era mais irrigado.

O testemunho de Angèle Lieby questiona muito do que hoje sabemos sobre o coma. Conta, em seu livro Uma lágrima me salvou, como passou meses em coma  totalmente ciente do que estava acontecendo ao seu redor, em particular as reações dos médicos e enfermeiras; e que derramou uma lágrima, quando o médico declarou ao marido que ela era “como um vegetal” e, praticamente, não tinha mais atividade cerebral, propondo por isso a eutanásia. Essa lágrima a salvou, embora o médico tenha procurado negar seu significado, falando de uma reação física automática. Desde então, Madame Lieby ministra palestras para médicos reanimadores ou equipes de enfermagem, incentivando-os a tratar pacientes em coma com muito mais consideração e a falar respeitosamente com eles.

Também podemos citar o caso do jovem inglês Martin Pistorius, que em coma por 12 anos esteve consciente de tudo, como ele relata em seu livro de testemunhos The ghost boy.

Pesquisas em neurobiologia

Em um nível mais geral, a pesquisa científica nas últimas décadas levou a uma séria revisão das evidências que são apresentadas para negar toda a consciência fora da atividade cerebral.

O paradigma materialista do cérebro produtor de pensamento, e fonte da consciência, tem sido questionado há anos por cientistas do mais alto nível, no campo da neurobiologia. Assim, o ganhador do Nobel Sir John C. Eccles (por seus trabalhos sobre o cérebro e a neurobiologia) declarou pouco antes de sua morte, em 1997: “Devemos reconhecer que somos seres espirituais dotados de almas, que existem em um mundo espiritual, tanto quanto seres materiais dotados de corpos e cérebros, que existem em um mundo material”. Eccles falou de superstição a propósito do “reducionismo materialista”, que pretende explicar o mundo espiritual através de atividades neurais.

Muito antes de Eccles e outros neurobiólogos, o filósofo francês Henri Bergson havia mostrado claramente os limites do materialismo em suas obras. Em Matéria e memória, ele explica que o cérebro é um filtro que permite selecionar os elementos da memória, que são necessários em função da situação em determinado momento. Segundo Bergson, a ação criadora, voltada para o futuro, permite unir os diferentes aspectos da memória, mas a memória transcende o espaço e não é material.

Não sendo um cientista de formação, embora tenha feito com grande rigor várias observações sobre pessoas com problemas cerebrais e coletado experiências psíquicas bem documentadas, como, por exemplo, a da mãe que vê o filho chamando-o em um campo de batalha no exato momento em que ele morria durante a guerra (discurso à Society of Psychical Research, Londres), Bergson não viu suas conclusões levadas a sério pelo mundo científico; foi preciso que surgissem cientistas como Eccles para que se questionasse o paradigma materialista na relação espírito/cérebro.

Hoje, descobrimos uma propriedade notável do cérebro: sua plasticidade. Isto significa que ele não pode mais ser visto como um simples computador, com áreas diferentes para controlar diferentes funções, tais como a linguagem e as habilidades motoras do cérebro.

Podemos citar o caso surpreendente, revelado neste ano, de uma jovem nascida, há 18 anos, sem uma parte do cérebro: a totalidade do hemisfério esquerdo. É acompanhada por um projeto de pesquisa da Universidade de Chicago desde os 14 meses de idade, que assegura ter ela habilidades de leitura acima da média e, também, um QI ligeiramente acima da média. Isso nos leva a perguntar se o instituto do cérebro, em Moscou, está mesmo certo em preservar o cérebro de Lenin tão preciosamente, para buscar discernir as causas de sua inteligência supostamente superior…

Pesquisas em física quântica

Encontramos essa crítica do paradigma materialista nos maiores pesquisadores da física quântica. Poer exemplo, o físico quântico e ganhador do prêmio Nobel de Física, Eugene P. Wigner, explicou que uma medição quântica necessitava de um espírito consciente para se efetuar, e insistia que o pensamento tinha prioridade em relação à matéria. Subindo mais alto, podemos mencionar os grandes fundadores da física quântica, como Max Plank, que declarou: “Considero a consciência fundamental; considero a matéria derivada da consciência”.

As experiências de quase morte

Por outro lado, as inúmeras experiências de morte clínica (NDE ou Near Death Experience em inglês) registradas nos Estados Unidos e na Europa nas últimas décadas, desde o livro do Dr. Moody Vida após a vida, há mais de 40 anos, ou o trabalho sobre moribundos de Elisabeth Kübler-Ross (A morte é um novo sol, Pocket 2002), chamam a atenção sobre a realidade de um corpo espiritual, de sentidos espirituais.

Essa realidade era conhecida pelos místicos das várias tradições religiosas ou filosóficas, entre as quais podemos citar São Paulo, que falou, na segunda epístola aos Coríntios, de uma viagem que fez no Paraíso, acrescentando a seguir: “Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe”. Ou Platão, narrando as experiências de um soldado que voltou à vida após 12 dias, período no qual teve contato com mortos e fez várias experiências semelhantes aos testemunhos modernos da EQM. As EQMs, como essas histórias citadas, falam de um corpo espiritual que pode se mover independentemente do corpo físico e que, como ele, possui sentidos (visão, olfato, audição, toque etc.) que são simplesmente mais agudos e sutis do que os nossos sentidos físicos.

Algumas pessoas, como o filósofo Michel Onfray, durante o programa On n’est pas couché, que trouxe o testemunho de uma pessoa que viveu uma EQM, negam o valor dessas experiências, atribuindo-as à ação de remédios analgésicos, ou outros, sobre os cérebros dos pacientes. Esse argumento seria admissível, se estivéssemos lidando com experiências subjetivas, mas não é o caso. De fato, as pessoas que retornam de uma EQM testemunham ter ouvido as palavras dos médicos na sala em que estavam, ou mesmo em outros lugares do hospital, para os quais teriam sido transportadas com seu corpo espiritual, e tais testemunhos são corroborados pelos médicos ou enfermeiros envolvidos. Da mesma forma, as pessoas que saem de um longo coma, em que permaneceram conscientes, citam fatos, declarações ou ações da equipe médica durante o coma. Portanto, essas não são experiências puramente imaginárias e subjetivas, mas realidades objetivas confirmadas por múltiplos testemunhos.

Pode-se acrescentar, a respeito do mesmo Onfray, que tendo negado em suas obras a existência de Deus e até a existência histórica de Cristo, também mostrou certa coerência ao negar a existência de uma vida após a morte. Deste filósofo, que parece sincero em suas posições, podemos esperar uma evolução, porque o Evangelho nos diz que “quem procura encontra”.

Esse questionamento das grandes teorias materialistas sobre as relações entre a matéria e o espírito, ou o cérebro e a consciência, abre as portas para uma reflexão mais ampla sobre a vida após a morte, sem ter que arrastar atrás de si o peso de um materialismo redutor, que rejeita todos os testemunhos em nome da ciência e, assim, adotando uma posição anticientífica.

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