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A humildade, a rainha das virtudes cristãs na ordem prática, sem a qual toda outra virtude não é mais do que uma aparência, verdadeiramente foi para o Cura d’Ars [São João Maria Vianney] uma norma de vida e de perfeição. Irradiava-a de toda a sua pessoa. Mons. Ségur, que foi visitá-lo em 1858, estava convencido de que esta única virtude bastaria para o fazer canonizar. O prelado, regressando ao castelo, onde estava hospedado, não se cansava de falar na humildade do Cura. Parecia-lhe, diz o conde, um verdadeiro prodígio no meio daquela extraordinária afluência de gente que devia ser para o bom do Cura uma contínua tentação de amor-próprio.

 O P. Raymond, que foi uma das testemunhas de sua vida, e uma das testemunhas mais severas, teve de se curvar ante essa maravilha. “Uma das coisas que mais me impressionou no Cura d’Ars, diz ele, foi resistir de um modo tão admirável àquela verdadeira embriaguez de contínuas aclamações. Compreendia muito bem; via claramente que era a ele que buscavam em Ars. Mas jamais descobri um sentimento de orgulho em seu coração, nem uma leve palavra de vaidade nos seus lábios”.

Um petulante ou um presunçoso, por mais hábil que fosse, teria perdido a cabeça, atordoado com uma tal glória. Uma virtude comum não teria resistido tanto tempo. Só um santo poderia conservar-se humilde no meio de tais triunfos.

Certo penitente do Cura d’ Ars, pessoa ajuizada e perspicaz, dizia que seu confessor não chegou a sentir os assaltos do orgulho. “Parecia indiferente a toda honra, afirma a baronesa de Belvey, e em nada mais pensava senão em cumprir com as diferentes funções próprias do seu ministério”. Passava por entre a população que o ovacionava como uma criança, cuja graciosa candidez nós admiramos, sem que ela se dê conta.

O Cura d’Ars trilhou aquele caminho de infância que uma Santa Teresinha do Menino Jesus haveria de ensinar e praticar de um modo tão perfeito. “Certo dia, conta Mons. Dufour, missionário de Pont-d’Ain, um sacerdote dirigiu-lhe em minha presença algumas palavras de elogio. Olhou-o com ar de admiração e perguntando-lhe: ‘Mas meu Deus! que está a dizer V. Revma.?’”

Existe uma humildade ordinária, obrigatória ao comum dos mortais, a qual consiste em alguém não se estimar mais do que vale. Para possuir esta humildade basta ter senso comum. Este grau elementar foi superado consideravelmente pelo Cura d’Ars; mas para isso foi preciso um auxílio especial do Alto: a humildade chegou no Cura d’Ars “a um grau heroico que é nos santos um fruto de graças especiais”; foi mais um dom gratuito de Deus do que o resultado de esforços humanos.

De outro lado ele mesmo o explicava em momentos de intimidade: “Minha filha, dizia a uma de suas penitentes, não peça a Deus o conhecimento total de suas misérias. Eu o pedi uma só vez e alcancei. Se Deus não me tivesse sustentado, no mesmo instante teria caído no desespero”. Semelhante confidência fez ao Irmão Atanásio: “Fiquei tão aterrorizado ao conhecer a minha miséria, dizia ele, que em seguida pedi a graça de esquecer-me dela. Deus me ouviu, mas deixou-me a suficiente luz sobre o meu nada, para que eu conheça que não sou capaz de coisa alguma”.

(Francis Trochu. O Cura d’Ars. Tradução de dois padres anônimos. São Paulo, Cultor de Livros, 2015, p. 505-506)

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