corumbas

[O escritor Armando Fontes, autor do importante romance Os Corumbas, pouco tempo antes de sua morte relembrou-se de um padre português que conheceu no Sergipe, em 1918, com quem conviveu por quatro ou cinco anos e mudou a sua vida. No pequeno trecho a seguir, extraído das vinte páginas em que retratou o sacerdote Abílio da Silva Mendes, vemos o homem de Deus enfrentando com coragem o coronavírus daquela época, que matou em todo o mundo no mínimo cinquenta milhões de pessoas.]

Morando em Santo Antonio, por esse tempo, já me fora dado conhecê-lo pessoalmente. E aos meus dezoito anos de leitor apaixonado e crente no que diziam Haeckel, Darwin, Schopenhauer, até Forjaz Sampaio, veio ele no meu espírito introduzir a dúvida de que meus orientadores nem em tudo tinham razão. Porque, como aos meus olhos se estava oferecendo, havia seres que erguiam e sublimavam a condição humana, que faziam de sua missão sobre a Terra uma cruzada, tudo isso denunciando uma força supraterrena, o poder de um Deus.

Admirá-lo, porém, somente o vim quando epidemia da gripe espanhola que assolou o mundo atingiu também o Aracaju. Aí, sua fama logo a todos se impôs, e a cidade, agradecida, teceu loas ao vigário da Colina.

Porque, enquanto os recursos faltavam, enfermeiros não havia, os médicos eram poucos para o atendimento dos velhos clientes, quando não estavam, eles mesmos, às portas da morte, — Padre Abílio foi o médico, o enfermeiro, o chefe de família, a dona de casa, de todas aquelas casas de taipa e telha, senão de palha, que se espalhavam pelas orlas do morro, pelos arcais e apicuns circunvizinhos.

Até na Getimana, no Saco, mais distantes, porém integrados em sua paróquia, era visto, incansável, levando um medicamento, uma pequena sacola de arroz, de feijão ou de farinha, para suprir as necessidades mais prementes, — e ele as conhecia todas — deste, daquele lar…

Aí, as Associações Religiosas e Assistências aracajuanas, os Governos do Município e do Estado, a Associação Comercial, a própria Maçonaria — que também saíra à rua para defender a cidade do flagelo — todos se esmeraram no esforço de obter recursos para deles munir o vigário de Santo Antônio, que, ele só, instituíra na cidade o melhor serviço de defesa da população vitimada. Porque, munido de uma energia prodigiosa, que certamente se estribaria na sua fé profunda, ele atendia a todos os aspectos da assistência, aos seus doentes, que subiam a pouco mais de uma centena. E achava jeito de mudar um lençol, trocar as fraldas de uma criancinha, fazer um caldo na humilde cozinha do assistido, vestir um morto para ser enterrado mais condignamente, carregar nos braços uma velha, que precisava de trocar de catre. . .

Passada a epidemia, tornou ele, com a mesma animação de sempre, a tratar das obras interrompidas da Igrejinha, do seu dever social de assistir, caso por caso, aos seus desprotegidos paroquianos, levando a este, consolo espiritual, àquele, uma espórtula magra, tirada de seus minguados ganhos.

(Adonias Filho et alii. O assunto é padre, Rio, Agir, 1968, p.34-36)