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Haverá coisas aproveitáveis, em tantas décadas de teoria e prática psicanalítica? Quais são as suas verdadeiras contribuições ao estudo do comportamento humano trazidas por Freud, o homem que “descobriu” o Inconsciente e supervalorizou o Instinto?

Alguns psicanalistas católicos aceitam os conceitos com que Freud descreve a sexualidade humana, mas não aderem a nenhum programa de revolução sexual, mantendo-se nos quadros estritos da moral cristã (Tony Anatrella é exemplo recente); e outros que, seguindo Freud, são levados a questionar o pensamento da Igreja em vários pontos da moral sexual (como Marc Oraison, na segunda metade do século XX). Os dois nomes citados são de sacerdotes; e, embora o relacionamento do segundo com a hierarquia não tenha sido um mar de rosas, revela quanto o magistério abrandou no assunto Freud e psicanálise.

Para o psiquiatra austríaco Rudolf Allers, há um antagonismo essencial entre o espírito geral do freudismo e a mentalidade católica: a concepção naturalista, as idéias descabidas sobre religião (a ideia da religião como uma neurose obrigatória, a ideia de Deus como sendo a imagem do pai, e a ideia da comunhão remontar à refeição totemística etc.), a negação da liberdade, o papel exagerado atribuído aos instintos. Vê, por isso, uma dificuldade intransponível no desejo de, ao deixar de lado essas oposições, buscar salvar ao menos o seu método terapêutico. Não acredita ser possível “batizar” a psicanálise, no mesmo sentido em que Santo Agostinho teria cristianizado o Neo-Platonismo e Santo Tomás “batizado” Aristóteles.

O bom senso manda que, na obra de Freud e seus seguidores, os especialistas separem o joio do trigo: aquilo que em suas obras está comprometido por sua filosofia materialista, o que nela é realmente ciência do comportamento e quais os benefícios práticos de seu método terapêutico.

Independente, porém, das respostas, não é possível esquecer aquilo que, na psicanálise freudiana, é mera construção ideológica e contribuiu largamente para disseminar o sexualismo contemporâneo, que desaguou na sociedade pornográfica das últimas décadas, depois de ter deixado marcas inegáveis no século XX.

Freud é um dos artífices da modernidade. É inegável sua influência cultural nas artes de vanguarda (sobretudo o surrealismo), na literatura contemporânea, nas ciências humanas, na filosofia. Foi e é muito incensado pela “indústria cultural”, sobretudo o cinema, que muito se beneficiou com a sua sexolatria. O diretor John Huston, no filme Freud, inicialmente com roteiro de Sartre, começa o processo de canonização do “santo”, visto como um herói enfrentando uma sociedade hipócrita que reluta em ver-se diante do espelho que o criador da psicologia profunda lhe põe diante.

Esse homem, que via sexo em tudo e animalizava exageradamente o ser humano, teria seu nome para sempre associado — seria inevitável — à revolução sexual da nossa época.  Não era para menos. Os exageros em sua visão da sexualidade infantil, segundo a qual toda criança é uma pervertida sexual polimórfica, compelida a obter satisfação sexual, na primeira infância, fora dos canais normalmente aceitos — ou seja, transformando uma sexualidade ainda potencial em já plenamente ativa —, seria um prato cheio aos adeptos contemporâneos do erotismo radical e revolucionário; e, mesmo Freud não tendo sido um revolucionário em matéria de costumes sexuais, suas ideias contribuiriam para o clima de transgressão da época.

É essa “ficção científica” que está destruindo, com os golpes do martelo acadêmico e midiático, o maior complexo moral já desenvolvido pelo ser humano, a partir da inspiração divina no Monte Sinai, num processo de destruição que tem um nome bem preciso: niilismo, redução a pó de tudo aquilo que pode contribuir para o aperfeiçoamento espiritual da criatura humana.

Esses dois judeus tão diferentes, Freud e Cristo, jamais se entenderiam. Se o médico vienense não atacou diretamente a Igreja, sua obsessão sexualista forneceu no entanto farto combustível aos inimigos da moral católica, para a qual o sexo sempre foi algo a ser contido, mais que estimulado. “No momento em que o sexo deixa de ser um servo, torna-se um tirano”, disse Chesterton no livro que escreveu sobre São Francisco de Assis.