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Não acredito um pingo em declarações do tipo “nada no mundo será como antes”. Pelo contrário, tudo permanecerá exatamente o mesmo (…) A principal consequência do coronavírus será a de acelerar certas alterações já em andamento.

Desde alguns anos, o conjunto dos desenvolvimentos tecnológicos, desde os menos importantes (vídeo sob demanda, pagamento virtual) aos mais importantes (teletrabalho, compras na Internet, redes sociais) teve como grande resultado (objetivo principal?) a diminuição dos contatos materiais e, acima de tudo, humanos.

A epidemia de coronavírus oferece uma magnífica razão de ser para essa tendência de fundo: uma certa obsolescência que parece ter afetado as relações humanas.

Isto me faz pensar numa comparação brilhante que encontrei, em texto contra a procriação assistida por médicos, escrito por um grupo de ativistas denominado “os chimpanzés do futuro”, que descobri na Internet (nunca disse que a Internet só trouxesse coisas inconvenientes). Cito-a: “Em breve, fazer bebês com uma mulher, de graça e deixando espaço para o acaso, parecerá tão incongruente quanto tomar um táxi sem uma conta na internet”. Compartilhamento de carros, compartilhamento de casas… Temos, afinal, as utopias que merecemos, mas deixemos isso de lado.

Seria igualmente falso dizer que [nesta pandemia] redescobrimos o trágico, a morte, a finitude etc. A tendência, há mais de meio século, bem descrita por Philippe Airès, é dissimular a morte, na medida do possível; e eis que a morte nunca foi tão discreta quanto nestas semanas. As pessoas morrem na solidão, em quartos de hospitais ou casas de repouso, sendo imediatamente enterradas (ou incineradas, pois a cremação parece mais dentro do espírito da época), sem que se avise ninguém, em segredo.

Morte sem nenhum testemunho: suas vítimas são reduzidas a um número nas estatísticas de falecimentos diários, e a angústia que se espalha pela população, à medida que cresce o total de mortos, tem qualquer coisa de estranhamente abstrato.

Um outro número ganhou muita importância nas últimas semanas: a da idade dos doentes. Até que idade eles devem ser reanimados e cuidados? 70, 75, 80 anos? Depende, aparentemente, da região do mundo em que vivemos; mas, de qualquer forma, nunca antes expressamos com um descaramento tão tranquilo o fato de que a vida das pessoas não tem o mesmo valor; que, a partir de uma certa idade (70, 75, 80 anos?), é mais ou menos como se você já estivesse morto.

Todas essas tendências, como disse, já existiam antes do coronavírus; elas apenas se manifestaram de um modo mais evidente. Após o confinamento, não vamos acordar num mundo novo: será o mesmo, mas um pouco pior.

https://radiomaria.it/coronavirus-houellebecq-cari-amici-il-mondo-sara-uguale-solo-un-po-peggiore/