Comunione in bocca

[Segundo declarações ao jornal La Nuova Bussola Quotidiana, o médico italiano Fabio Sansonna, que trabalha em hospital com pacientes portadores do covid-19, esse vírus infecta as células das membranas mucosas das vias aéreas, viajando principalmente através de gotículas ou na forma hidro-gasosa de aerossol. Em sua opinião, desde que a saliva não passe do estado líquido, como normalmente está na boca, para o estado de gotículas ou aerossol, ela seria potencialmente inofensiva. Assim, a comunhão na boca não poderia ser contra-indicada. Curriculum Vitae do dr. Sansonna aqui.]

Eu trabalho em um hospital com pacientes com covid-19, e isso me levou a aprofundar e discutir o assunto também com outros colegas. De acordo com a literatura científica, chegamos às seguintes conclusões: ao contrário de outros vírus, o coronavírus ataca diretamente as mucosas do trato respiratório superior (nariz, faringe e laringe) e inferior (brônquios e bronquíolos), diretamente em seus receptores e sem passar pelas vias linfáticas e sanguíneas, como outros vírus.

O covid-19 infecta as células das membranas mucosas das vias aéreas, principalmente viajando através de gotículas ou numa forma hidro-gasosa de aerossol. Consequentemente, embora tenha sido levantada a hipótese, a transmissão por contato nunca foi demonstrada até o momento.

As palmas das mãos e as pontas dos dedos, como a saliva, são os principais vetores do coronavírus, mas é difícil que elas possam causar infecção por não conter o vírus na forma de gotículas ou aerossol: na verdade, o coronavírus deve “levantar voo” para poder infectar.

Desde que a saliva não passe do estado líquido, como normalmente está na boca, para o estado de gotículas ou aerossol, é potencialmente inofensiva. A saliva se torna perigosa quando nebuliza gotículas com espirros, tosse ou falar alto a curta distância.

Quem estiver sem máscara, ou com a máscara abaixada sob o nariz, estará sujeito às gotas de saliva, que após um espirro atingem até 6 metros de distância  e após uma tosse até 2 metros (portanto, 1 metro de distância não seria suficiente para evitar o contágio).

As palmas das mãos e as pontas dos dedos podem ser depósitos de vírus, mas dificilmente podem ser a causa de infecção direta; portanto, certas soluções sugeridas, como desinfetar as mãos na igreja antes de receber a hóstia, ou calçar luvas, são, na minha opinião, questionáveis. Não digo que sejam inúteis, mas não serão certamente essas providências que nos protegerão com mais eficácia da infecção.

E até a saliva, ainda que contenha vírus, não pode infectar enquanto permanecer líquida na boca e não passar ao estado aeriforme (mesmo que a clássica velhinha molhe os dedos do padre, coisa aliás evitável prendendo a hóstia com os lábios na borda oposta).

Além disso, a saliva contém lisozima, que é um desinfetante natural, que também atua contra o vírus; até a lisozima tem sido usada como medicamento contra o Coronavírus.

Em conclusão, segundo penso, não faz diferença receber a comunhão na boca ou na mão; são ambas as modalidades potencialmente inofensivas quanto ao risco de contágio pelo coronavírus.

Em vez disso, será necessário dar muito mais atenção a outras coisas, como as máscaras, evitando espirrar ou tossir na igreja e, especialmente, no momento da comunhão, diante do padre, quando for necessário remover a máscara por alguns segundos para receber a hóstia (na boca ou na mão).

Muitas vezes, fomos atacados pelo caso Galileu, quando o padre jesuíta Grassi pretendeu impor uma falsa ideia científica (que durou dois séculos!) apenas para defender suas convicções, que nem teológicas eram, mas só clericais; gostaria de impedir que essas coisas aconteçam novamente, pelo tanto que amo a Igreja.

Como a terra e o sol continuavam girando à sua maneira, independentemente das ideias dos jesuítas, o coronavírus faz o mesmo e infecta apenas pelo ar, independentemente de quem é a favor ou contra a comunhão na boca ou nas mãos.

Poderíamos dizer, de maneira eficaz, que o covid-19 viaja apenas de avião; em relação à saliva, não navega enquanto ela permanecer na boca em forma líquida. Como confirmação do exposto, durante a epidemia de covid-19 os cirurgiões reduziram as intervenções em laparoscopia, para impedir que, insuflando gás no abdômen, vazem das válvulas gotículas aeriformes contendo coronavírus.

Em resumo, isso deve ser uma boa notícia para todos nós: saber que nenhuma das duas maneiras de receber a hóstia representa realmente um sério risco de infecção. Com isso, não pretendo diminuir a importância das precauções de higiene sugeridas até agora.

https://lanuovabq.it/it/comunione-in-bocca-nessun-rischio-per-la-salute